Quando sorris, algo em mim
reconhece um lugar onde já estive. Não é memória, é sensação. O teu sorriso não
promete cuidado nem excesso, e isso é o que mais me estimula. Há uma sedução
silenciosa na forma como existes diante de mim. De repente, tudo o que sou
ganha outros contornos em função da tua presença. As emoções tornam-se mais
nítidas, mais honestas, quase dolorosas na sua clareza. O desejo nasce aí, não
como urgência imediata, mas como necessidade de permanecer nesse campo intenso
onde já não me escondo. Esse teu sorriso doce e sedutor não é leviano – é lucidez
extrema. Um modo de sentir tão próximo, que sustenta o olhar mesmo quando ele
pesa. Sinto-me num lugar delicado, num céu que tudo promete, um mar de insónia
onde o teu olhar paira, como um aroma de primavera num amanhecer de outono. Quando
te aproximas – mesmo sem tocar – a pressa dissolve-se. Fico preso ao instante,
atento ao que pulsa sob a pele, à forma como o silêncio entre nós se torna
carregado de significado. Não é tensão vazia, é desejo em estado bruto. É ali
que percebo que o que me prende além do corpo, é também a forma como me fazes
sentir profundamente desejado. Quando sorris, não me convidas apenas a querer-te;
Convidas-me a existir mais intensamente, a aceitar que há emoções que não podem
perder tempo, para que a ousadia possa penetrar no brilho dos teus olhos, cintilando
no seu silêncio de fogo. Ou tomar os teus lábios para sentir o sabor do beijo,
num devaneio louco que a lucidez não conseguiu desvanecer.
albino santos
* Reservados Todos os Momentos de Autor
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