EU NÃO ARDO NAS SOMBRAS, CONSTRUO ALVORADAS!...

segunda-feira, 18 de maio de 2026

O FOGO DAS PALAVRAS


Há palavras que não foram feitas para serem ditas em voz alta. Foram feitas para se dizerem baixinho, perto da pele, entre a respiração ofegante e o desejo, nesse lugar invisível, onde com o aroma de cada sílaba no lugar da boca se faz lume. Porque há bocas que não beijam apenas. Aproximam-se devagar e deixam no ar o perfume morno das palavras ainda por dizer. Cada sílaba trás consigo um calor próprio: umas ardem lentas, como brasas escondidas sobre as cinzas; outras chegam abruptas, faíscas breves capazes de incendiar uma noite inteira. E eu guardarei cada uma delas. Não pelo seu significado exacto, mas pelo seu aroma. Pela forma como certas palavras permanecem depois de pronunciadas, como um vinho generoso na memória da língua, como fumo impregnado na roupa após um fogo intenso. Há vozes que deixam cheiro. Há nomes que continuam a respirar dentro de nós mesmo depois de terem sido ditos pela última vez.
No lugar da boca – esse lugar vulnerável entre o silêncio e o desejo – acenderei um fogo. Não um fogo devastador, mas aquele fogo íntimo que aquece o frio da ausência. Um fogo feito de murmúrios, de pausas, de vogais demoradas na saliva do desejo. Porque o amor, às vezes começa exactamente aí: na maneira como alguém pronuncia o nosso nome como se estivesse a tocar-nos. Então, vou arder lentamente. Como uma carta esquecida junto à chama de uma vela. Como que aceita finalmente o calor no íntimo despir das suas luzes. Como quem descobre que certas chamas não ferem – iluminam. Porque há quem acenda o desejo dentro do corpo apenas com a ternura de uma palavra dita com os lábios encostados ao ouvido.
Com o aroma de cada sílaba no lugar da boca farei lume, até que a noite tenha o teu cheiro.





albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor

Sem comentários:

Enviar um comentário