Há palavras que não foram
feitas para serem ditas em voz alta. Foram feitas para se dizerem baixinho,
perto da pele, entre a respiração ofegante e o desejo, nesse lugar invisível,
onde com o aroma de cada sílaba no lugar da boca se faz lume. Porque há bocas
que não beijam apenas. Aproximam-se devagar e deixam no ar o perfume morno das
palavras ainda por dizer. Cada sílaba trás consigo um calor próprio: umas ardem
lentas, como brasas escondidas sobre as cinzas; outras chegam abruptas, faíscas
breves capazes de incendiar uma noite inteira. E eu guardarei cada uma delas.
Não pelo seu significado exacto, mas pelo seu aroma. Pela forma como certas
palavras permanecem depois de pronunciadas, como um vinho generoso na memória
da língua, como fumo impregnado na roupa após um fogo intenso. Há vozes que
deixam cheiro. Há nomes que continuam a respirar dentro de nós mesmo depois de
terem sido ditos pela última
vez.
No lugar da boca – esse lugar
vulnerável entre o silêncio e o desejo – acenderei um fogo. Não um fogo devastador,
mas aquele fogo íntimo que aquece o frio da ausência. Um fogo feito de
murmúrios, de pausas, de vogais demoradas na saliva do desejo. Porque o amor,
às vezes começa exactamente aí: na maneira como alguém pronuncia o nosso nome
como se estivesse a tocar-nos. Então, vou arder lentamente. Como uma carta
esquecida junto à chama de uma vela. Como que aceita finalmente o calor no
íntimo despir das suas luzes. Como quem descobre que certas chamas não ferem –
iluminam. Porque há quem acenda o desejo dentro do corpo apenas com a ternura
de uma palavra dita com os lábios encostados ao ouvido.
Com o aroma de cada sílaba no lugar da boca farei lume, até
que a noite tenha o teu cheiro.
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