EU NÃO ARDO NAS SOMBRAS, CONSTRUO ALVORADAS!...

terça-feira, 12 de maio de 2026

PRIMAVERAS...




 



Há estações que se anunciam devagar, como um perfume esquecido numa roupa antiga, como a luz morna que escorre pelas cortinas antes mesmo do dia nascer. A primavera, talvez seja isso mesmo: o instante em que o desejo desperta discretamente, sem fazer ruído, como as primeiras luzes das colinas.
Ela sentia-o nos pequenos detalhes. No modo como o silêncio se demorava entre duas palavras. Na maneira quase cruel como certos olhares tocavam mais fundo do que as mãos.
Havia qualquer coisa prestes a acontecer – e isso tornava tudo mais excitante.

As rosas no jardim, ainda estavam fechadas, húmidas de orvalho. Mesmo assim, já exalavam um perfume leve, como se guardassem para o momento certo a beleza que carregavam por dentro. Também o amor possui esse segredo – oculta-se na espera, deixa que a noite cresça nas suas margens nuas, até que as pétalas húmidas das rosas se ofereçam amorosamente à luz do amanhecer.
E haviam os lábios... Sempre os lábios. Habitadas fronteiras entre aquilo que se diz e aquilo que se deseja dizer. Quantas vezes o beijo começa muito antes da boca? Talvez tudo comece num breve tremor, no cuidado lento com que alguém pronuncia o nome do outro, ou no instante em que os dois percebem que já não pertencem inteiramente à noite. Ela gostava dessa hesitação excitante… do quase. Ela sabia que quando o desejo amadurece devagar, torna-se mais intenso, como um poema escrito à média luz, onde cada palavra parece arder discretamente na alvura da página.


albino santos
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1 comentário:

  1. Albino,

    li teu texto como quem sente a primavera chegando. Há uma delicadeza bonita na forma como tu escreves o desejo sem pressa, sem excesso, apenas deixando que ele amadureça entre silêncios, olhares e pequenas esperas. Enquanto eu lia, parecia sentir o perfume das rosas ainda fechadas, como se o amor também precisasse desse tempo secreto antes de florescer completamente. E talvez precise mesmo.
    Gostei especialmente da parte em que tu falas dos lábios e desse instante em que o beijo começa antes da boca. Isso ficou repercutindo em mim, porque há sentimentos que nascem muito antes do toque começam na maneira como alguém nos olha, nos escuta ou demora um pouco mais ao dizer nosso nome.
    Teu texto não apenas descreve o desejo. Ele envolve a gente devagar, como luz entrando pela cortina ao amanhecer. E isso é muito bonito.

    Um abraço,
    Fernanda

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