EU NÃO ARDO NAS SOMBRAS, CONSTRUO ALVORADAS!...

quarta-feira, 6 de maio de 2026

TERNURA










Procuro a ternura súbita como quem acende uma vela no meio da tempestade. Não uma ternura domesticada, dessas que aprendem a sentar-se à mesa e a repetir gestos seguros, mas outra – selvagem, breve, luminosa. Uma ternura que aconteça de repente, como o primeiro cheiro da terra depois da chuva, como uma ave atravessando o silêncio. Quero encontrar em ti essa flor ávida de orvalho, ainda húmida da madrugada. Aproximar-me devagar, como quem entra num jardim abandonado, onde cada folha guarda um segredo e cada sombra respira saudade. E tu és um bosque. Em ti os caminhos não conduzem, perdem-se. E talvez seja isso que me chama – a possibilidade rara de desaparecer sem medo. Entrar dentro de ti seria abandonar as margens do que conheço. Deixar para trás os ruídos, os nomes, a fadiga dos dias. Caminhar pelo interior do teu silêncio como quem toca o musgo com as mãos nuas. E depois adormecer na tua boca, como se a tua voz pudesse fechar a noite sobre mim com ternura. Como se existisse finalmente um lugar onde o coração pudesse repousar.

Há amores que queimam. Outros iluminam.
O teu, imagino-o assim: uma luz baixa entre árvores, quase secreta, onde alguém me espera sem chamar.


albino santos
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