Depois de uma pausa necessária,
retomo o meu espaço onde o sonho nunca se esvai. Talvez não o faça com a
assiduidade que gostaria. Mas, fá-lo-ei apenas enquanto possa continuar a deambular
entre as palavras, sem pressas e na medida em que isso me permita manter com
quem me lê uma salutar relação de partilha, afecto e cumplicidade. Este tempo de
ausência, foi para mim um tempo de reflexão sobre o tempo, a vida e tudo que
nos envolve na complexa e frágil teia dos dias. O tempo passa sem fazer
barulho, não bate à porta, não nos chama pelo nome, não nos avisa que certa
manhã será a última de uma vida. Que um determinado abraço não voltará a
acontecer. Somos estranhos diante do tempo.
Cada aniversário acrescenta uma
vela, mas também retira um pouco do desconhecido que existe à nossa frente.
Cada fotografia que guardamos é uma pequena prova de que aquele instante já não
existe. Cada casa onde vivemos, cada cidade que deixamos, cada pessoa que
amamos, pertence já a uma espécie de lugar invisível onde só podemos entrar
através da memória. E a memória, muitas vezes só guarda aquilo que julgávamos
insignificante e esquece aquilo que pensávamos inesquecível. Por isso, devemos
olhar para o tempo de outra maneira. Não como aquilo que nos falta, mas como
aquilo que ainda temos. Não como uma contagem decrescente destinada a
assustar-nos, mas como uma oportunidade irrepetível. De viver. Porque ninguém
sabe quanto tempo ainda tem. Essa é uma das poucas verdades que nos igualam.
Podemos saber a nossa idade, mas nunca saberemos a duração da nossa história.
Podemos contar os anos que vivemos, mas nunca saberemos os anos que nos faltam.
Enquanto lemos estas palavras,
alguns segundos já ficaram para trás. Não voltarão. Outros chegaram entretanto,
silenciosos, quase invisíveis. E continuarão a chegar, um após outro, até o dia
em que chegará o último. Não sabemos qual será. E talvez seja melhor assim. Porque
se soubéssemos exactamente o tempo que nos resta, viveríamos aterrorizados pela
contagem.
Não precisamos de saber quanto
tempo falta. Precisamos apenas de não esquecer que entre o primeiro instante e
o último, existe um milagre breve a que chamamos vida!...
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albino santos
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