EU NÃO ARDO NAS SOMBRAS, CONSTRUO ALVORADAS!...

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

ENTRE SOMBRAS E SILÊNCIOS...


 













Foste o horizonte único do meu voo, o vértice da minha caminhada. Havia em ti qualquer coisa de mar ao entardecer, uma luz morna que me chamava sem palavras. E no entanto, nunca te tive diante dos meus olhos. Os nossos encontros aconteciam porque a distância entre nós nos impedia de existir.
E essa impossibilidade, tornava-se na mais fascinante e cruel realidade.
Entre sombras e silêncios aproximavas-te lentamente. A tua presença tocava-me sempre antes das mãos. Nos teus olhos cintilava um brilho de desejo ao qual eu respondia sem hesitar. Porém, nunca estiveste, verdadeiramente, nos meus braços, mas tantas vezes te desnudaste na minha cama para fazermos arder a noite.

Tu foste assim. Feita de impossibilidades. Uma amante feita de noite. Um corpo que aprendi a desvendar no escuro. Um encontro que nunca chegou a acontecer e que, ainda assim, deixou profundamente em mim a quase certeza de ter acontecido. E todas as manhãs, quando acordava, e tudo se desfazia ao primeiro clarão do amanhecer, sentia vontade de fechar as janelas, escurecer o quarto, simular a noite, para te encontrar outra vez e reinventar o prazer na luz transfigurada da manhã.

Talvez tenha sido essa a nossa história. Uma extensa sombra que o tempo vai calcinar.
E se algum dia me perguntarem onde termina o meu voo, talvez sorria e apenas responda:
 – Não termina! Voarei enquanto resistirem as asas!



albino santos
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