EU NÃO ARDO NAS SOMBRAS, CONSTRUO ALVORADAS!...
terça-feira, 3 de março de 2026
A REBELDIA DO POEMA
A poesia talvez seja a célula do meu corpo
que em vez de viver
se transformou em escrita.
Há em mim uma célula invisível
que se esconde em silêncio.
Não circula no sangue – colecciona sílabas. Enquanto as outras células cumprem o destino humilde de ser corpo,
há uma que se recusa:
divide-se em metáforas, respira vírgulas, alimenta-se de pura rebeldia.
Talvez tenha sido erro da natureza
ou distracção dos deuses – como
se Prometeu, cansado do fogo,
me tivesse deixado uma brasa
escondida sob a língua.
Essa célula não cicatriza, não adormece,
não aprende a morrer.
Transforma a dor em alfabeto,
o amor em agua corrente,
a ausência em morada permanente.
E quando o amor me toca,
ela se acende… cintila!
Quando o amor me fere,
ela floresce.
E assim vou vivendo
com esta pequena rebelião biológica:
um corpo que insiste em ser normal
e uma célula – teimosa, luminosa –
que insiste em ser poema!
albino santos
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