EU NÃO ARDO NAS SOMBRAS, CONSTRUO ALVORADAS!...

quarta-feira, 6 de maio de 2026

TERNURA










Procuro a ternura súbita como quem acende uma vela no meio da tempestade. Não uma ternura domesticada, dessas que aprendem a sentar-se à mesa e a repetir gestos seguros, mas outra – selvagem, breve, luminosa. Uma ternura que aconteça de repente, como o primeiro cheiro da terra depois da chuva, como uma ave atravessando o silêncio. Quero encontrar em ti essa flor ávida de orvalho, ainda húmida da madrugada. Aproximar-me devagar, como quem entra num jardim abandonado, onde cada folha guarda um segredo e cada sombra respira saudade. E tu és um bosque. Em ti os caminhos não conduzem, perdem-se. E talvez seja isso que me chama – a possibilidade rara de desaparecer sem medo. Entrar dentro de ti seria abandonar as margens do que conheço. Deixar para trás os ruídos, os nomes, a fadiga dos dias. Caminhar pelo interior do teu silêncio como quem toca o musgo com as mãos nuas. E depois adormecer na tua boca, como se a tua voz pudesse fechar a noite sobre mim com ternura. Como se existisse finalmente um lugar onde o coração pudesse repousar.

Há amores que queimam. Outros iluminam.
O teu, imagino-o assim: uma luz baixa entre árvores, quase secreta, onde alguém me espera sem chamar.


albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor

sábado, 2 de maio de 2026

O DESERTO


 






Sinto-me um deserto vasto e silencioso, onde o tempo se deita sobre as dunas como um véu quente, ondulando entre memórias. Há em mim uma sede quase mineral, que não se apaga com a passagem dos dias nem com a ilusão das miragens. Caminho por mim mesmo como quem procura um sinal ou uma nascente escondida no labirinto interminável e rumoroso da memória.
E então vens tu – não como uma chuva tímida, mas como um rio impetuoso, cheio, indomável. O teu corpo trás a força da corrente, trás fulgor, trás vida. E quando te aproximas, o deserto em mim começa a estremecer, como se cada grão de areia conhecesse finalmente o seu destino. Perco-me nesse fluxo, cedo ao teu ímpeto, deixo de ser margem e dissolvo-me nas tuas águas. E aquilo que antes era árido, torna-se fértil, pulsante, infinito. Cada instante contigo é excesso – de calor, de presença, de desejo – como se o mundo inteiro se contraísse nesse encontro onde as margens já não existem. Sedento de ti, ergo-me até ao limite do que posso sentir, e bebo o horizonte como quem bebe a madrugada – lenta, densa, inevitável. Há um sabor em ti que não se esgota, uma urgência que não se apaga, mesmo depois de terminarem todos os instantes.

Depois… fica o eco. O calor que não arrefece. A memória do teu corpo ainda a correr no meu, como um rio que se recusa a desaparecer. E eu permaneço, à beira de mim mesmo, desejando essa inundação que transforma o deserto em vida, e o desejo em infinito.



albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor

segunda-feira, 27 de abril de 2026

ÉS O MAR E A ONDA


 




 

És o mar e a onda
o sal doce na pele do vento,
a maresia onde o desejo 
se liberta
sem âncoras,
sem nome, sem tempo.

És o rumor das águas profundas,
segredo que o mar não revela,
o impulso que nasce na lua
e rebenta em espuma
sobre a areia.

No dorso das vagas
cavalgas o amor,
indomável, vasto, profundo,
como se o mundo coubesse
no instante líquido do teu beijo.

Eu, sou apenas a margem rendida,
que aprende a ceder
cada vez que regressas,
cada vez que me invades
com o infinito que trazes contigo.



albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor

domingo, 26 de abril de 2026

QUEM SOU


 












Sou o teu segredo de todas as horas. Habito o intervalo entre o teu suspiro e o teu silêncio, onde a pele se faz confissão e a boca se perde em promessas. Sou a lembrança ardente que se acende no teu corpo quando a noite te envolve, o eco invisível que te percorre quando pensas estar só. Eu sou o silêncio que te conhece por dentro, o toque, mesmo ausente, que se imprime na tua memória como uma tatuagem. A cada instante, percorro-te devagar, como quem decifra um livro escrito apenas para si. Sou a  vertigem que se instala no calor teus gestos mais ousados, transformando um olhar num abismo e uma palavra num sussurro. Não me vês, mas sentes o meu respirar e o meu desejo repousado no calor da tua cintura. Sou o teu segredo quando o dia exige distância, mas também quando a noite cúmplice, nos oferece morada.
Não preciso de nome, quero apenas a tua respiração pousada sobre mim. Em cada instante, sou o teu refúgio e o fogo que te consome por dentro.
No tempo suspenso do nosso desejo, sou a chama que não se apaga, a presença que se deita contigo quando todo o mundo dorme. De todas as horas, pertenço à mais íntima de ti – aquela em que os teus olhos fechados revelam mais que qualquer palavra. Ali, sou o teu mais puro segredo, e tu és o meu mais delicioso  devaneio.



albino santos
* Resercados Todos os Direitos de Autor

segunda-feira, 20 de abril de 2026

SEDE










No verão, o mundo transpira desejos ocultos. O calor solta os aromas da terra, da pele, da fruta que se abre ao mais leve toque. E tu, és feita dessa mistura quente e provocante – o perfume da tarde na tua pele é uma vertigem que me leva a querer provar tudo, lentamente. Quando passas, trazes contigo esse cheiro doce, ácido, quase proibido – como o de uma laranja que se espreme devagar sobre a língua. E eu, sedento, deixo que esse aroma se cole em mim, como suor escorrendo sobre a pele. Há em ti um calor que não se vê, mas que se sente – entre o sussurro e o gesto, entre o olhar e a boca. A tua boca… tão fresca, tão molhada, cheia de promessas ditas em silêncio. É nela que a minha sede se faz fogo. Porque o que eu quero, não é só o gosto da tua saliva, mas a lentidão com que ela escorre quando os teus lábios se entreabrem, quando dizes o meu nome como se o provasses. Há uma sede que o verão desperta em nós – mas só tu sabes o sabor que a sacia. Quero-te com essa sede de fogo que nasce e morre na tua boca. E quando me aproximo com a sede gemendo na minha boca, eu sei que é na tua que me quero saciar. 



albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor

sexta-feira, 17 de abril de 2026

PRAZER...


 












As palavras deslizam, contornam, descobrem-te. Há nelas uma suavidade densa que te atravessa sem pressa, como se cada sílaba fosse um gesto, cada pausa um convite. E o desejo, longe de te lançar no abismo, começa a guiar-te com uma delicadeza firme, conduzindo-te por sensações que te envolvem em doce volúpia.
Sente… mas agora devagar, como quem percorre a própria pele com o tempo suspenso. Não te precipites ainda no fogo – deixa-o crescer em ti, como um calor que começa discreto e pouco a pouco se instala, se espalha, se insinua em cada recanto do teu corpo. Respira – sente como tudo em ti responde, como se o próprio ar tivesse peso, textura, intenção. Há um arrepio subtil que nasce onde menos esperas, e cresce – lento, persistente – até se tornar inevitável. Como um segredo que o corpo guarda e, finalmente, decide revelar. E nesse instante há um impulso mais íntimo, mais próximo – quase como um murmúrio junto à pele. Ele não te percorre de uma só vez, vai com cuidado, como quem conhece o caminho sem precisar de o ver. Há um prazer que se derrama nesse gesto, um delírio que não explode – prolonga-se. E prolonga-se… até que já não há fronteira entre ser e sentir. Até que o desejo deixa de ser impulso e se transforma em vertigem quase hipnótica. Tudo em ti se abre, como se o próprio tempo tivesse decidido abrandar só para te acompanhar. E nesse derramar quase sagrado o prazer torna-se luz!



albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor

segunda-feira, 13 de abril de 2026

A NOITE DEMOROU-SE EM TI









A noite demorou-se em ti.
Não foi apenas passagem,
foi um fogo lento
como se a noite guardasse nos dedos
o rasto quente da tua pele.

Agora amanhece,
mas o teu corpo ainda conserva
o brilho húmido das horas proibidas,
e o quarto ainda respira
o calor dos teus gestos.

A luz fatigada
escorre na nudez do teu corpo.
E tu cintilas,   
como um corpo transpirado
num charco de luz.
A manhã nasce lá fora,
mas aqui dentro
é em ti que o desejo ainda canta.

 

albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor