EU NÃO ARDO NAS SOMBRAS, CONSTRUO ALVORADAS!...

domingo, 9 de agosto de 2026

UM OLHAR...





"Há um olhar que não pertence ao dia. Ele caminha entre sombras e silêncios, vem por atalhos que só a noite conhece. Insinua-se, desliza, toca o limiar do meu sono como quem acende uma chama num quarto escuro. E eu sinto-o antes de o ver: uma vibração leve, um pressentimento que me agita. Vem sempre diferente, como se mudasse de rosto para não ser reconhecido. Às vezes é ternura, outras, vertigem. Mas em todas as suas formas há um fascínio que se sente naquilo que nunca se tem por inteiro. E então, quando os ponteiros do tempo dormem profundamente, esse olhar chega silencioso como uma sombra. Rouba-me o sono como quem rouba um segredo. E eu, cúmplice do furto, deixo que me leve – porque há algo de doce em perder o repouso por uma presença que não se explica.
No fundo, talvez eu nem queira dormir. Quero sentir o abismo doce desse olhar, o eco que deixa no corpo, o perfume que fica quando esse olhar se vai. Seduz-me o que não se toca, o que apenas visita – o olhar que todas as noites vem, por algum atalho, para me roubar o sono e me devolver â vida."

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albino santos
( in " A Frágil Teia dos Dias" | Excerto )
* Reservados Todos os Direitos de Autor

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

O PERFUME





                                    Há perfumes que resistem
                                    à erosão do tempo.
                                    Ficam presos na gaveta da memória 
                                    que o tempo não consegue esmorecer.
                                    Permanece
                                    paciente, doce, suave, 
                                    até ser exposto à nudez da sombra
                                    onde pousam os lábios.

                                    Desperta desejos tão profundos
                                    que o tempo não o desgasta,
                                    antes o apura e sublima.
                                    É um fogo breve
                                    quando o seu aroma te inunda
                                    na fatigada e lenta doçura da tarde.                  




albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

TEMPO DE CEREJAS


 






Nós fomos o tempo das cerejas
a felicidade nua a pulsar nos lábios
um verão breve
amadurecendo entre os dedos

Fomos tardes abertas ao sol,
a pele morna, o riso sem destino
e aquele silêncio doce
onde o mundo parecia caber inteiro
dentro de um beijo.
Aprendemos a sorver a vida devagar
como quem acredita
que a eternidade pode começar
em qualquer instante.

Mas todos os estios se despedem.
Vieram os dias mais pálidos
e o verão amadurecendo em silêncio
dentro de nós.

Nós fomos o tempo das cerejas
e talvez por isso
ainda há doçura naquilo que nos dói…


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albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor

sábado, 1 de agosto de 2026

A TUA VOZ...


 











A tua voz acende-se ao amanhecer, mas nasce algures na noite, naquele lugar onde a escuridão guarda aquilo que o dia não ousa dizer. Chega como um sussurro e eu escuto-a como quem abre uma porta sem saber o que existe do outro lado. Há qualquer coisa na tua voz que não diz o meu nome, mas que o pronuncia dentro de mim. Lá fora a noite escorre nos vidros da janela. A cidade respira distante, indiferente. Aqui, porém, tudo parece suspenso: o silêncio, a luz pálida sobre os lençóis, a memória do teu corpo que talvez nem tenha estado aqui e ainda assim deixou a sua ausência por toda a parte.

Falas. A tua voz desliza na escuridão como uma mão que conhece o caminho sem precisar de luz. Não sei se me procuras ou se apenas passas por mim, mas há no modo como dizes certas palavras uma promessa que não se completa. E talvez seja justamente isso que me perturba.
O desejo quando não se revela inteiramente, torna-se sempre inquietante, como um sopro de um animal ferido. A madrugada começa então a clarear, mas eu não quero o dia. Quero esta penumbra onde ainda podemos fingir que nada aconteceu – onde o teu sussurro permanece entre nós como um segredo que nenhum dos dois pretende confessar.

A tua voz acende-se ao amanhecer e eu fico acordado, escutando a noite dentro dela.



albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor

domingo, 26 de julho de 2026

NASCEU NA MARGEM DO RIO...







 

Nasceu na margem do rio, num dia de sol, entre as frágeis teias da vida. Que as suas palavras continuam a ecoar dentro de quem as lê, como o rumor distante do mar depois de abandonarmos a praia, como o perfume suave das madressilvas que permanece intacto no ar quando o jardim já repousa.

albino santos


sábado, 20 de junho de 2026

A FRÁGIL TEIA DOS DIAS...


Este será o meu próximo livro que será apresentado ao público no dia 25 de Julho ( sábado) pelas 16h00, na Casa Branca de Gramido. Um local de rara beleza situado na margem do rio Douro.

Todos estão desde já convidados para o evento. Será muito gratificante poder contar com a  V/ estimulante presença.

 

***  ***  ***

 

No conjunto de textos contidos nesta obra, descobriremos percursos de um novo encantamento, onde as palavras gravitam pelo fascinante mundo das emoções, onde tudo é tão próximo e intocável.

                      “Tudo o que vive à superfície dos dias parece eterno enquanto respira. Mas há sempre qualquer coisa à espreita – um desvio invisível, uma súbita mudança de luz, uma palavra dita tarde demais capaz de desfazer a arquitectura do quotidiano. Vivemos como quem atravessa uma ponte suspensa por fios de memória e hábito. Cada gesto repete o anterior para nos convencer de que existe continuidade, de que amanhã será apenas uma continuação dócil do dia de hoje. No entanto, basta um golpe de vento. Um telefonema. Um silêncio prolongado. Basta o rasgão inesperado de um poema dentro do peito para tudo perder o nome no meio de sombras.
Porque tudo o que acontece “ na frágil teia dos dias” nunca nos pertence verdadeiramente. É apenas um vento de passagem – breve, luminoso e impossível de segurar.


*O acompanhamento da edição deste livro e a sua promoção, vai certamente retirar-me algum  tempo para estar convosco. Espero a V/ compreensão.


O AUTOR
albino santos