Há estações que se anunciam
devagar, como um perfume esquecido numa roupa antiga, como a luz morna que
escorre pelas cortinas antes mesmo do dia nascer. A primavera, talvez seja isso
mesmo: o instante em que o desejo desperta discretamente, sem fazer ruído, como
as primeiras luzes das colinas.
Ela sentia-o nos pequenos
detalhes. No modo como o silêncio se demorava entre duas palavras. Na maneira
quase cruel como certos olhares tocavam mais fundo do que as mãos.
Havia
qualquer coisa prestes a acontecer – e isso tornava tudo mais excitante.
As rosas no jardim, ainda
estavam fechadas, húmidas de orvalho. Mesmo assim, já exalavam um perfume leve,
como se guardassem para o momento certo a beleza que carregavam por dentro.
Também o amor possui esse segredo – oculta-se na espera, deixa que a noite
cresça nas suas margens nuas, até que as pétalas húmidas das rosas se ofereçam
amorosamente à luz do amanhecer.
E haviam os lábios... Sempre os lábios. Habitadas fronteiras entre aquilo que se
diz e aquilo que se deseja dizer. Quantas vezes o beijo começa muito antes da
boca? Talvez tudo comece num breve tremor, no cuidado lento com que alguém
pronuncia o nome do outro, ou no instante em que os dois percebem que já não pertencem
inteiramente à noite. Ela gostava dessa hesitação excitante… do quase. Ela
sabia que quando o desejo amadurece devagar, torna-se mais intenso, como um
poema escrito à média luz, onde cada palavra parece arder discretamente na
alvura da página.
albino santos
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