É com muita pena minha que vos transmito que, por conselho médico vou suspender a minha actividade no POLYEDRO, por tempo indeterminado. Voltarei quando puder. Deixo um grande abraço a todos! ATÉ SEMPRE!...
albino santos
EU NÃO ARDO NAS SOMBRAS, CONSTRUO ALVORADAS!...
É com muita pena minha que vos transmito que, por conselho médico vou suspender a minha actividade no POLYEDRO, por tempo indeterminado. Voltarei quando puder. Deixo um grande abraço a todos! ATÉ SEMPRE!...
albino santos
Se ainda me sentes quando já não estou,
não perguntes ao tempo o que ele
não sabe dizer.
Pergunta antes ao teu corpo
porque ainda se incendeia
quando a minha ausência passa por ti.
Talvez descubras
nesse ardor que te desperta
que há desejos tão profundos
que o tempo não desgasta,
apenas os amadurece
e que um pálido aroma
é o bastante
para os fazer arder outra vez.
albino santos
* Resercados Todos os Direitos de Autor
Havia na noite uma quietude
quase solene. A luz pousava devagar sobre o nosso rosto, e o tempo, por uma
dessas raras crueldades, parecia ter suspendido o seu curso para nos conceder
mais alguns instantes antes do adeus. Tu estavas diante de mim, tão próximo que
a distância era uma espécie de vertigem. Notei que prolongaste o silêncio.
Demoraste. E nessa demora havia tudo o que naquele momento não ousamos
confessar: a ternura, o amor, o desejo, a hesitação de quem sabe que certas
portas, uma vez fechadas, não tornam a abrir-se com a mesma luz. A tua boca
pairava bem próximo da minha, como a última página de uma história que nenhum
de nós queria terminar.
Lembro-me sobretudo do silêncio. Do modo como os teus
olhos procuravam os meus, como se ainda esperassem encontrar neles uma razão
para ficar. Eu nada disse. Talvez porque há momentos em que qualquer palavra
pode precipitar a partida, e o silêncio, ao contrário, ainda guarda a esperança
de que tudo pode continuar. Porém, o silêncio foi ficando mais espesso, a tua
imagem foi lentamente dissipando, como se uma estranha névoa se tivesse formado
subitamente entre os nossos corpos, até que desapareceste sem que entre nós
houvesse o mais ligeiro toque.
Na noite, escura e triste, ficou
o perfume ténue da tua presença, ficou no ar a memória do que quase aconteceu.
E ficou em mim aquele instante suspenso, tão breve e tão marcante, em que os
nossos lábios estiveram à distância de um suspiro. Compreendi então, que
algumas coisas não terminam quando alguém fecha a porta. Continuam a acontecer,
silenciosamente, dentro de nós. Voltam nas noites mais agitadas, quando a
memória, essa amante paciente, me devolve a proximidade da tua boca e o calor
ansioso daquele último instante em que desapareceste diante dos meus olhos.
albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor
Descobri tarde
que o tempo não é uma estrada.
É um oceano. Afundamos nele
e chamamos passado
àquilo que ainda nos toca.
Chamamos saudade
àquilo que sobreviveu ao naufrágio
e chamamos eternidade
ao que o tempo não conseguiu desfazer.
Por isso, permanecemos na margem
onde todas as horas
esperam umas pelas outras.
Foste um dia por terminar,
uma tarde que recusou o crepúsculo,
um longo beijo de despedida
em que cada instante
morre na água com sede de fogo.
E nós,
que nunca aprendermos a parar o tempo
passamos a vida inteira
a tentar regressar ao minuto
em que ainda nos julgávamos eternos!
albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor
Há qualquer coisa em ti que não
pertence inteiramente a este mundo. Como se trouxesses nos olhos a memória das
constelações que já não existem, e na voz o eco distante de uma promessa feita
antes de existirmos. Como se a tua alma tivesse atravessado dimensões, tempos e
vidas apenas para conhecer a minha. Talvez tenha sido a lua, cúmplice das almas
que se procuram no escuro. Ou talvez as estrelas, testemunhas de tudo o que
fomos e de tudo aquilo que ainda não sabemos que seremos, a conspirar em silencio para cruzar os nossos caminhos. Porque há encontros que começam
muito antes de acontecerem, num lugar onde o tempo não existe, onde as almas
não têm nome e os destinos são apenas raios de energia entrelaçados numa imensa
teia cósmica.
Talvez tivéssemos caminhado por universos diferentes, sob outros nomes, em
outros corpos, amando-nos e perdendo-nos vezes suficientes, para que nesta vida
bastasse um olhar para que o fogo se acendesse dentro de nós. Há em ti uma
energia que me atravessa, cuja razão não se consegue explicar. Não sei se foste
destino, acaso, ou uma dessas misteriosas leis do universo que ainda não aprendemos
a compreender. Não sei se foste uma estrela que caiu no meu caminho, ou se fui
eu que, sem saber, passou uma vida inteira a caminhar na tua direcção. Apenas
sei que desde que nos cruzamos, tudo o que é silêncio tem a tua voz. Escuto-te
na minha intuição, nos sonhos que chegam sem aviso, naquela sensação
inexplicável de que existe algo maior a mover-se por detrás de tudo o que acontece.
Há mistérios que não foram feitos para serem desvendados, mas para serem
sentidos. E tu és um desses mistérios. A coincidência impossível. A estrela que
apareceu no céu certo, na noite certa, no momento exacto em que eu já tinha deixado
de procurar.
Por isso, se um dia me
perguntares o que somos, não saberei responder. Direi apenas que somos duas
almas que atravessaram o infinito sem saber que caminhavam uma para a outra com
desejos no corpo e a boca cheia de beijos. E se isto for apenas um sonho, não
me acordes, porque nós sabemos que há sonhos bem mais intensos que a própria
realidade.
albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor
O ar cheira a jasmim e madrugada.
Pelas frestas, o vento entra
como um sopro transtornado
deslizando pelas cortinas
encontrando a minha pele.
Sinto passos lentos.
Som de tecido roçando as pernas,
um suspiro abafado
e a certeza de que a escuridão
sabe o meu nome.
A lua, quase lume, quase lábios,
derrama-se sobre a minha boca.
Fecho os olhos,
o teu sabor me invade
e a noite respira inteira,
contigo dentro de mim.
Que me espera ainda?
albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor
Há noites que não trazem sonhos.
Trazem um perfume na memória. Um calor no corpo. Um gesto suspenso no tempo.
Uma ternura que não quer partir.
Fecho os olhos e o silêncio aproxima-se devagar, como quem regressa a casa. E, sem que o tempo ou a distância possam impedir, encontro-te outra vez neste
lugar sem nome, como dois seres que se encontram por acaso numa esquina
esquecida do infinito. Então a noite respira. E eu também. Atravessas a noite
como quem atravessa água, entras no meu sono, leve como uma névoa. Não dizes
nada - nós sabemos bem a linguagem do silêncio.
Há palavras que pertencem ao
mundo e só fazem sentido dentro do sono, onde podemos tocar-nos sem mãos,
beijar-nos sem lábios, existir sem que o mundo perceba. Deixo-te existir em mim
sem perguntas, sem urgências, sem destino. Como existe a noite sem estrelas.
Como existe o mar dentro de ti. Como existe um segredo no coração.
Nesta noite, basta-me sentir a
tua ternura no meu sono, onde tudo pode ser verdade sem acontecer.
albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor