EU NÃO ARDO NAS SOMBRAS, CONSTRUO ALVORADAS!...

sábado, 1 de agosto de 2026

A TUA VOZ...


 











A tua voz acende-se ao amanhecer, mas nasce algures na noite, naquele lugar onde a escuridão guarda aquilo que o dia não ousa dizer. Chega como um sussurro e eu escuto-a como quem abre uma porta sem saber o que existe do outro lado. Há qualquer coisa na tua voz que não diz o meu nome, mas que o pronuncia dentro de mim. Lá fora a noite escorre nos vidros da janela. A cidade respira distante, indiferente. Aqui, porém, tudo parece suspenso: o silêncio, a luz pálida sobre os lençóis, a memória do teu corpo que talvez nem tenha estado aqui e ainda assim deixou a sua ausência por toda a parte.

Falas. A tua voz desliza na escuridão como uma mão que conhece o caminho sem precisar de luz. Não sei se me procuras ou se apenas passas por mim, mas há no modo como dizes certas palavras uma promessa que não se completa. E talvez seja justamente isso que me perturba.
O desejo quando não se revela inteiramente, torna-se sempre inquietante, como um sopro de um animal ferido. A madrugada começa então a clarear, mas eu não quero o dia. Quero esta penumbra onde ainda podemos fingir que nada aconteceu – onde o teu sussurro permanece entre nós como um segredo que nenhum dos dois pretende confessar.

A tua voz acende-se ao amanhecer e eu fico acordado, escutando a noite dentro dela.



albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor

domingo, 26 de julho de 2026

NASCEU NA MARGEM DO RIO...







 

Nasceu na margem do rio, num dia de sol, entre as frágeis teias da vida. Que as suas palavras continuam a ecoar dentro de quem as lê, como o rumor distante do mar depois de abandonarmos a praia, como o perfume suave das madressilvas que permanece intacto no ar quando o jardim já repousa.

albino santos


sábado, 20 de junho de 2026

A FRÁGIL TEIA DOS DIAS...


Este será o meu próximo livro que será apresentado ao público no dia 25 de Julho ( sábado) pelas 16h00, na Casa Branca de Gramido. Um local de rara beleza situado na margem do rio Douro.

Todos estão desde já convidados para o evento. Será muito gratificante poder contar com a  V/ estimulante presença.

 

***  ***  ***

 

No conjunto de textos contidos nesta obra, descobriremos percursos de um novo encantamento, onde as palavras gravitam pelo fascinante mundo das emoções, onde tudo é tão próximo e intocável.

                      “Tudo o que vive à superfície dos dias parece eterno enquanto respira. Mas há sempre qualquer coisa à espreita – um desvio invisível, uma súbita mudança de luz, uma palavra dita tarde demais capaz de desfazer a arquitectura do quotidiano. Vivemos como quem atravessa uma ponte suspensa por fios de memória e hábito. Cada gesto repete o anterior para nos convencer de que existe continuidade, de que amanhã será apenas uma continuação dócil do dia de hoje. No entanto, basta um golpe de vento. Um telefonema. Um silêncio prolongado. Basta o rasgão inesperado de um poema dentro do peito para tudo perder o nome no meio de sombras.
Porque tudo o que acontece “ na frágil teia dos dias” nunca nos pertence verdadeiramente. É apenas um vento de passagem – breve, luminoso e impossível de segurar.


*O acompanhamento da edição deste livro e a sua promoção, vai certamente retirar-me algum  tempo para estar convosco. Espero a V/ compreensão.


O AUTOR
albino santos


 

quarta-feira, 17 de junho de 2026

... SE UM ADEUS HOUVER









Ao sol débil e já tardio 
na ânsia de abraçar quanto podia
dei-te o mais secreto e estranho beijo.
Mas tanto exigimos às breves carícias
que nos perdemos na vertigem
do beijo amachucado
e ficamos sem mãos antes do tempo,
sem uma palavra,
sem um rumor de pálpebras.

Dissipou-se na pele
o perfume vivo dos nossos corpos.
Aturdidos em silêncio
tudo declinou e empalideceu
e veio o vento magoar-nos
com a frieza de olhares silenciosos.
E se um adeus houver
tudo se vai perder no rumor do vento,
por nada de eterno haver entre os lábios.





albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor

segunda-feira, 15 de junho de 2026

O RIO



 



Há muito que as minhas águas aprenderam o caminho para chegar até ti e nunca mais deixaram de correr na tua direcção. Em ti desaguam os rios da espera e os da esperança. Os que nascem serenos nas montanhas da manhã e os que transbordam nas tempestades da noite. Em ti chegam as correntes que escondo do mundo, carregadas de silêncios, memórias e perguntas que nunca ousei pronunciar. Entrego-te tudo o que passa por mim: as margens que construí para me proteger, as pontes que ergui para te alcançar, os reflexos de céu que transporto nas águas inquietas do meu peito.
Mas os rios também se cansam de correr sem saber se rumam ao mar ou ao deserto. Até quando as minhas águas hão-de procurar o teu horizonte? Até quando farei de ti a foz de tudo o que sou?

Porque há uma hora em que até os rios desejam repousar. Uma hora em que deixam de querer perder-se e começam a desejar encontrar-se. O rio que durante tanto tempo correu para encontrar a tua foz, começa a escutar o rumor distante das suas nascentes.



albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor

quinta-feira, 11 de junho de 2026

ONDE O MAR CANTA...







Fui eu quem traçou caminhos de fogo
sobre os teus silêncios,
quem abriu as janelas no teu corpo
para que a luz entrasse.
E em cada lugar onde estremeces
o prazer floresce
e tem o traço das minhas mãos.
Desenhei-te sem tinta, sem tela,
apenas com a ternura de quem ama.

Conheço o exacto instante
em que se liberta o teu suspiro,
o segundo breve
em que deixas de resistir
para floresceres nas minhas mãos.
Porque o prazer não nasce apenas
quando alguém navega o teu corpo
como quem navega o mar
sem o dominar nunca,
mas sabendo exactamente onde ele canta!



albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor