EU NÃO ARDO NAS SOMBRAS, CONSTRUO ALVORADAS!...

terça-feira, 25 de agosto de 2026

QUEM SOMOS ??


 









Há qualquer coisa em ti que não pertence inteiramente a este mundo. Como se trouxesses nos olhos a memória das constelações que já não existem, e na voz o eco distante de uma promessa feita antes de existirmos. Como se a tua alma tivesse atravessado dimensões, tempos e vidas apenas para conhecer a minha. Talvez tenha sido a lua, cúmplice das almas que se procuram no escuro. Ou talvez as estrelas, testemunhas de tudo o que fomos e de tudo aquilo que ainda não sabemos que seremos, a conspirar em silencio para cruzar os nossos caminhos. Porque há encontros que começam muito antes de acontecerem, num lugar onde o tempo não existe, onde as almas não têm nome e os destinos são apenas raios de energia entrelaçados numa imensa teia cósmica.
 
Talvez tivéssemos caminhado por universos diferentes, sob outros nomes, em outros corpos, amando-nos e perdendo-nos vezes suficientes, para que nesta vida bastasse um olhar para que o fogo se acendesse dentro de nós. Há em ti uma energia que me atravessa, cuja razão não se consegue explicar. Não sei se foste destino, acaso, ou uma dessas misteriosas leis do universo que ainda não aprendemos a compreender. Não sei se foste uma estrela que caiu no meu caminho, ou se fui eu que, sem saber, passou uma vida inteira a caminhar na tua direcção. Apenas sei que desde que nos cruzamos, tudo o que é silêncio tem a tua voz. Escuto-te na minha intuição, nos sonhos que chegam sem aviso, naquela sensação inexplicável de que existe algo maior a mover-se por detrás de tudo o que acontece. Há mistérios que não foram feitos para serem desvendados, mas para serem sentidos. E tu és um desses mistérios. A coincidência impossível. A estrela que apareceu no céu certo, na noite certa, no momento exacto em que eu já tinha deixado de procurar.

Por isso, se um dia me perguntares o que somos, não saberei responder. Direi apenas que somos duas almas que atravessaram o infinito sem saber que caminhavam uma para a outra com desejos no corpo e a boca cheia de beijos. E se isto for apenas um sonho, não me acordes, porque nós sabemos que há sonhos bem mais intensos que a própria realidade.


albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor


sexta-feira, 21 de agosto de 2026

QUE ME ESPERA AINDA?


 








O ar cheira a jasmim e madrugada.
Pelas frestas, o vento entra
como um sopro transtornado
deslizando pelas cortinas
encontrando a minha pele.

Sinto passos lentos.
Som de tecido roçando as pernas,
um suspiro abafado
e a certeza de que a escuridão
sabe o meu nome.

A lua, quase lume, quase lábios,
derrama-se sobre a minha boca.
Fecho os olhos,
o teu sabor me invade
e a noite respira inteira,
contigo dentro de mim.
Que me espera ainda?



albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor


sábado, 15 de agosto de 2026

HÁ NOITES ASSIM...






Há noites que não trazem sonhos. Trazem um perfume na memória. Um calor no corpo. Um gesto suspenso no tempo. Uma ternura que não quer partir.
Fecho os olhos e o silêncio aproxima-se devagar, como quem regressa a casa. E, sem que o tempo ou a distância possam impedir, encontro-te outra vez neste lugar sem nome, como dois seres que se encontram por acaso numa esquina esquecida do infinito. Então a noite respira. E eu também. Atravessas a noite como quem atravessa água, entras no meu sono, leve como uma névoa. Não dizes nada - nós sabemos bem a linguagem do silêncio.

Há palavras que pertencem ao mundo e só fazem sentido dentro do sono, onde podemos tocar-nos sem mãos, beijar-nos sem lábios, existir sem que o mundo perceba. Deixo-te existir em mim sem perguntas, sem urgências, sem destino. Como existe a noite sem estrelas. Como existe o mar dentro de ti. Como existe um segredo no coração.

Nesta noite, basta-me sentir a tua ternura no meu sono, onde tudo pode ser verdade sem acontecer.



albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

O SOL TINHA O TEU NOME!


Hoje o sol nasceu no meu quarto.
Não entrou pela janela – aconteceu.
Como acontecem certas memórias
que regressam sem aviso.
A luz pousou devagar sobre a cama desfeita,
percorreu um livro esquecido sobre a cama,
as roupas abandonadas na cadeira,
os cantos onde a solidão costuma esconder-se.
E por instantes, tudo pareceu respirar contigo.

Aqueceu-me a alma como quem conhece
as partes frias de um coração cansado.
Depois beijou-me a boca,
com aquela ternura rara
das coisas que chegam para ficar,
ainda que durem apenas um amanhecer.
Fechei os olhos.
Deixei-me ficar imóvel, entre a luz e a saudade.
O sol tinha o teu nome!



albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor

domingo, 9 de agosto de 2026

UM OLHAR...





"Há um olhar que não pertence ao dia. Ele caminha entre sombras e silêncios, vem por atalhos que só a noite conhece. Insinua-se, desliza, toca o limiar do meu sono como quem acende uma chama num quarto escuro. E eu sinto-o antes de o ver: uma vibração leve, um pressentimento que me agita. Vem sempre diferente, como se mudasse de rosto para não ser reconhecido. Às vezes é ternura, outras, vertigem. Mas em todas as suas formas há um fascínio que se sente naquilo que nunca se tem por inteiro. E então, quando os ponteiros do tempo dormem profundamente, esse olhar chega silencioso como uma sombra. Rouba-me o sono como quem rouba um segredo. E eu, cúmplice do furto, deixo que me leve – porque há algo de doce em perder o repouso por uma presença que não se explica.
No fundo, talvez eu nem queira dormir. Quero sentir o abismo doce desse olhar, o eco que deixa no corpo, o perfume que fica quando esse olhar se vai. Seduz-me o que não se toca, o que apenas visita – o olhar que todas as noites vem, por algum atalho, para me roubar o sono e me devolver â vida."

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albino santos
( in " A Frágil Teia dos Dias" | Excerto )
* Reservados Todos os Direitos de Autor

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

O PERFUME





                                    Há perfumes que resistem
                                    à erosão do tempo.
                                    Ficam presos na gaveta da memória 
                                    que o tempo não consegue esmorecer.
                                    Permanece
                                    paciente, doce, suave, 
                                    até ser exposto à nudez da sombra
                                    onde pousam os lábios.

                                    Desperta desejos tão profundos
                                    que o tempo não o desgasta,
                                    antes o apura e sublima.
                                    É um fogo breve
                                    quando esse aroma te inunda
                                    na fatigada e lenta doçura da tarde.                  




albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

TEMPO DE CEREJAS


 






Nós fomos o tempo das cerejas
a felicidade nua a pulsar nos lábios
um verão breve
amadurecendo entre os dedos

Fomos tardes abertas ao sol,
a pele morna, o riso sem destino
e aquele silêncio doce
onde o mundo parecia caber inteiro
dentro de um beijo.
Aprendemos a sorver a vida devagar
como quem acredita
que a eternidade pode começar
em qualquer instante.

Mas todos os estios se despedem.
Vieram os dias mais pálidos
e o verão amadurecendo em silêncio
dentro de nós.

Nós fomos o tempo das cerejas
e talvez por isso
ainda há doçura naquilo que nos dói…


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albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor