EU NÃO ARDO NAS SOMBRAS, CONSTRUO ALVORADAS!...

terça-feira, 31 de março de 2026

O POEMA





Há palavras que já nascem com asas
mas és tu quem cria o espaço onde
a poesia acontece!
Fecha os olhos um instante.
Imagina que o mundo se cala
só para ouvir o que nasce entre nós:
talvez uma palavra ainda húmida
acabada de sair do escuro,
um nome sussurrado,
um rumor que não cessa de crescer.

E quando os olhos dizem “Sim”
o corpo estremece ligeiramente,
como o primeiro toque antes do suspiro.
Pequeno gesto,
mas um imenso passo
nos labirintos do coração.
Porque esse “ Sim” é a origem de tudo:
do beijo no limiar dos lábios,
da paixão que sobrevive no deserto
até sorver a última gota de água.

Depois…já não há volta.
A página arde e já respira.
O poema avança.
E nós – já estamos, amorosamente,
dentro dele!



albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor

sábado, 28 de março de 2026

TALVEZ O AMOR SEJA UM POEMA


 

Talvez o amor seja um poema – não
daqueles que se escrevem
meticulosamente,
mas daqueles que se vivem sem rascunho.
Um poema sem título,
que começa antes de sabermos ler os sinais
e termina muito depois da última linha.

O amor tem ritmo próprio,
às vezes é verso longo e profundo
que se estende por todo o horizonte.
Outras vezes é sílaba breve,
quase silêncio,
quase medo de dizer.
Há amores que rimam com eternidade
e outros que preferem
a rima imperfeita do momento.
Mas todos carregam metáforas no olhar,
porque amar é sempre ver no outro
muito mais do que o mundo vê.

Talvez o amor seja isso:
uma linguagem que nasce entre dois corpos,
uma sintaxe feita de olhares e espera,
uma pontuação de ausências e regressos.
E quando termina – se é que termina –
fica como ficam os grandes poemas:
não na página, mas na memória do peito
onde cada leitura dói,
ilumina e consola ao mesmo tempo!


albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor

quarta-feira, 25 de março de 2026

OS NÓS DO TEMPO





No vértice da noite não há lua.
Há apenas a ousadia do teu corpo
sobre a minha hesitação.
Desatamos os nós – não  
das mãos, mas do tempo.
O dia tinha-nos atado
com pequenas cordas invisíveis.

Quando a noite se abriu
como um fruto maduro
que treme nos ramos prestes a cair,
é aí que começa o amor:
na ternura das mãos, finalmente livres,
sem saberem bem o que fazer
com tanta madrugada.
Caem devagar, uma sobre a outra
como dois segredos cansados
de ser silêncio.

E o amor acontece –
não como um fogo súbito
mas como um nó que se desfaz
no lugar mais solitário da noite.
E ali ficamos, livres para o amor
como se nunca tivesse havido tempo
antes de nós!





albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor

domingo, 22 de março de 2026

SEGREDA-ME A MÚSICA DA NOITE




Segreda-me a música da noite
sem que o dia nos ouça –
mais perto ,
quase dentro do teu respirar.
Como quem abre um véu imaginário
e deixa cair sobre mim
a sombra quente do teu corpo.


Há um fogo manso no roçar da tua voz,
um tremor que se espalha
lento, inevitável,
como se o escuro soubesse o nosso nome.
Deixa que te invada sem pressa, 
que cada sílaba seja um toque aceso
a percorrer-te por dentro.
O teu murmúrio
desata em mim todos os desejos
que escondo à luz.

A noite envolve-nos, densa,
como um segredo,
e no calor do instante
já não há distância entre o que és
e o que em mim se incendeia.
Fala mais baixo – ou talvez mais fundo,
até que a tua voz deixe de ser som
e passe a ser chama
a arder intensamente em mim.



albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor

quarta-feira, 18 de março de 2026

TUDO EM TI É MIRAGEM, VERTIGEM, VIAGEM...


 




Miragem é o teu corpo na penumbra
desenhada pela luz
como se a noite te tivesse escolhido
para partilhares comigo a luz das estrelas.
E quando te aproximas,
os meus dedos hesitam um segundo
à tentação de reconhecer cada centímetro.

Vertigem é aproximar-me.
É sentir o calor do teu corpo
como quem chega perto das chamas
e já não sabe se quer recuar ou arder.
Os teus olhos não olham – despem.
E no toque quase distraído da tua mão
há um itinerário secreto
que me conduz à sombra mais funda de ti.

Viagem é a tua pele sobre a minha
onde o tempo perde as horas e o nome.
É a lenta descoberta
quando os meus dedos te escrevem
em silêncio.
Em ti, o desejo não é pressa – é maré.
Sobe devagar, envolve,
e quando me dou conta
Já fui arrastado na onda onde me afundo.



albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Auror

segunda-feira, 16 de março de 2026

ESBELTO ERA O DIA... ASSIM FOI A NOITE...





"Esbelto era o dia em que te encontrei.
A
ssim esbelta era a noite em que te despi."

Entre esses dois momentos
cresceu uma febre silenciosa,
um desejo súbito
que o teu olhar acendeu no meu peito.

O dia guardava-te envolta numa luz clara que se derramava pelo teu corpo.
Eu via-te – e no entanto
era como se já te imaginasse na penumbra lenta da noite.
Porque a noite tem esse dom:
desata os nós do mundo
aproxima os corpos lentamente
e transforma o silêncio num lugar
onde os corpos se abrem para o esplendor.

Quando te despi
foi como abrir uma porta secreta
que sempre existira dentro de mim.
As minhas mãos avançaram devagar
com a ternura de quem descobre um segredo que arde.
Havia nos teus olhos um abismo doce
e eu mergulhava nele sem querer regressar.
Naquele instante,
o meu mundo era apenas 
o esplendor do teu corpo nos meus dedos
o tremor breve da tua respiração
e o meu nome quase perdido
entre os teus lábios.

Esbelto fora o dia em que te encontrei.
Assim esbelta foi a noite em que te despi.



albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor

quinta-feira, 12 de março de 2026

O AMOR...


 







O amor ás vezes é luz que nasce no olhar
como manhã depois da chuva,
clara, quente, imprevisível.
Caminha pelos dias
acendendo pequenas estrelas
nas coisas simples:
um gesto,
um sorriso,
um nome dito devagar,
o canto súbito de um pássaro.
É apenas a sombra de um dia que passou.

Mas se a sombra chega
com o desejo pousado na alma,
o amor não se perde,
fica guardado como brasa sob a cinza,
esperando o sopro certo para voltar a arder.
Porque quem ama
nunca esquece que dentro do peito
há sempre um pedaço de sol à espera
de arder outra vez.



albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor