EU NÃO ARDO NAS SOMBRAS, CONSTRUO ALVORADAS!...

segunda-feira, 6 de abril de 2026

QUANDO TE ESCREVO






Quando te escrevo,
sinto na pele um dócil ardor.
Os dedos passam sobre as teclas
como se tocassem o fogo lento da noite.
E tu és o fruto
nos meus dedos a tremer.
Podemos cantar, voar – podemos morrer.

Percorro-te
como se não houvera bosque mais secreto
onde a sombra entra devagar;
como quem lê um poema raro,
linha a linha, como quem se despe.
Lume breve que arde a noite inteira.

E se te falo de amor,
não é um amor abstracto, ocasional,
é tão concreto como o deslizar da minha mão
sobre a tua pele.
Lento como um beijo que começa tímido
e termina torrencial.
E se aproximares os lábios da última sílaba,
vais sentir o calor que nela deixei
à espera desse beijo
que há-de inundar a minha boca.



albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor

sexta-feira, 3 de abril de 2026

UM SECRETO INSTANTE


 

Baixa comigo a luz da noite.
Não digas nada.
Há palavras que perturbam o que é sagrado.
Chega mais perto – assim!
Deixa que o mundo fique lá fora
como um casaco esquecido numa cadeira.
Aqui dentro,
somos apenas o escorrer infatigável do desejo.

Toco-te o rosto com dedos de lume
que a tua pele guarda em pequenas alvoradas,
e eu percorro-as devagar.
Não preciso de lua agora.
Nem do sol.
A única claridade que preciso
é a que nasce quando os teus olhos se fecharem
ao sentir a minha boca na tua.
Nesse secreto instante
o universo reduz-se ao espaço que existe
entre as nossas bocas antes do beijo.



albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor

terça-feira, 31 de março de 2026

O POEMA





Há palavras que já nascem com asas
mas és tu quem cria o espaço onde
a poesia acontece!
Fecha os olhos um instante.
Imagina que o mundo se cala
só para ouvir o que nasce entre nós:
talvez uma palavra ainda húmida
acabada de sair do escuro,
um nome sussurrado,
um rumor que não cessa de crescer.

E quando os olhos dizem “Sim”
o corpo estremece ligeiramente,
como o primeiro toque antes do suspiro.
Pequeno gesto,
mas um imenso passo
nos labirintos do coração.
Porque esse “ Sim” é a origem de tudo:
do beijo no limiar dos lábios,
da paixão que sobrevive no deserto
até sorver a última gota de água.

Depois…já não há volta.
A página arde e já respira.
O poema avança.
E nós – já estamos, amorosamente,
dentro dele!



albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor

sábado, 28 de março de 2026

TALVEZ O AMOR SEJA UM POEMA


 

Talvez o amor seja um poema – não
daqueles que se escrevem
meticulosamente,
mas daqueles que se vivem sem rascunho.
Um poema sem título,
que começa antes de sabermos ler os sinais
e termina muito depois da última linha.

O amor tem ritmo próprio,
às vezes é verso longo e profundo
que se estende por todo o horizonte.
Outras vezes é sílaba breve,
quase silêncio,
quase medo de dizer.
Há amores que rimam com eternidade
e outros que preferem
a rima imperfeita do momento.
Mas todos carregam metáforas no olhar,
porque amar é sempre ver no outro
muito mais do que o mundo vê.

Talvez o amor seja isso:
uma linguagem que nasce entre dois corpos,
uma sintaxe feita de olhares e espera,
uma pontuação de ausências e regressos.
E quando termina – se é que termina –
fica como ficam os grandes poemas:
não na página, mas na memória do peito
onde cada leitura dói,
ilumina e consola ao mesmo tempo!


albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor

quarta-feira, 25 de março de 2026

OS NÓS DO TEMPO





No vértice da noite não há lua.
Há apenas a ousadia do teu corpo
sobre a minha hesitação.
Desatamos os nós – não  
das mãos, mas do tempo.
O dia tinha-nos atado
com pequenas cordas invisíveis.

Quando a noite se abriu
como um fruto maduro
que treme nos ramos prestes a cair,
é aí que começa o amor:
na ternura das mãos, finalmente livres,
sem saberem bem o que fazer
com tanta madrugada.
Caem devagar, uma sobre a outra
como dois segredos cansados
de ser silêncio.

E o amor acontece –
não como um fogo súbito
mas como um nó que se desfaz
no lugar mais solitário da noite.
E ali ficamos, livres para o amor
como se nunca tivesse havido tempo
antes de nós!





albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor

domingo, 22 de março de 2026

SEGREDA-ME A MÚSICA DA NOITE




Segreda-me a música da noite
sem que o dia nos ouça –
mais perto ,
quase dentro do teu respirar.
Como quem abre um véu imaginário
e deixa cair sobre mim
a sombra quente do teu corpo.


Há um fogo manso no roçar da tua voz,
um tremor que se espalha
lento, inevitável,
como se o escuro soubesse o nosso nome.
Deixa que te invada sem pressa, 
que cada sílaba seja um toque aceso
a percorrer-te por dentro.
O teu murmúrio
desata em mim todos os desejos
que escondo à luz.

A noite envolve-nos, densa,
como um segredo,
e no calor do instante
já não há distância entre o que és
e o que em mim se incendeia.
Fala mais baixo – ou talvez mais fundo,
até que a tua voz deixe de ser som
e passe a ser chama
a arder intensamente em mim.



albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor

quarta-feira, 18 de março de 2026

TUDO EM TI É MIRAGEM, VERTIGEM, VIAGEM...


 




Miragem é o teu corpo na penumbra
desenhada pela luz
como se a noite te tivesse escolhido
para partilhares comigo a luz das estrelas.
E quando te aproximas,
os meus dedos hesitam um segundo
à tentação de reconhecer cada centímetro.

Vertigem é aproximar-me.
É sentir o calor do teu corpo
como quem chega perto das chamas
e já não sabe se quer recuar ou arder.
Os teus olhos não olham – despem.
E no toque quase distraído da tua mão
há um itinerário secreto
que me conduz à sombra mais funda de ti.

Viagem é a tua pele sobre a minha
onde o tempo perde as horas e o nome.
É a lenta descoberta
quando os meus dedos te escrevem
em silêncio.
Em ti, o desejo não é pressa – é maré.
Sobe devagar, envolve,
e quando me dou conta
Já fui arrastado na onda onde me afundo.



albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Auror