Eu fui a fonte, a vertigem, o
sol. Fui a água que te procurava na sede, o calor que se demorava na tua pele,
a luz que entrava pelas fendas do teu silêncio. Fui impulso e demora, o lugar secreto
onde te despias como o orvalho da manhã.
E tu foste o sonho. A miragem
que aparecia quando eu fechava os olhos, a madrugada que se perdeu no vértice
da noite, onde o impossível não existe. Eras essa forma cruel e bonita de
existir dentro de mim, sem nunca, teres entrado inteiramente. Ainda me lembro
de ti pelo cheiro, pelo calor, pela forma como o corpo reconhece aquilo que
jamais esqueceu. Havia entre nós uma cumplicidade única. Um silêncio cheio de
coisas por dizer, olhares que se demoravam longamente até os olhos se fecharem
de desejo, mãos que conheciam o caminho sem jamais o percorrerem por completo.
E, quando a distância se instalava entre nós, o desejo crescia e nós inventávamos
tudo o que o corpo pedia.
Eu fui o sol. Tu a madrugada. Foi esse o nosso destino: Eu nascer em ti como luz, enquanto tu desaparecias em mim como sombra. Mas há sonhos que não terminam quando acordamos. Ficam suspensos no corpo como uma música que ninguém escuta. Ficam na memória dos dedos, no sabor imaginado de um beijo, naquele instante em que os olhos se fecham e, por uma fracção de segundo, acreditamos que o tempo pode voltar para trás. Eu, às vezes, ainda volto. Volto aquele lugar onde fomos possíveis. Onde eu era a fonte, vertigem , sol… e tu, antes de seres distância, eras a minha mais bela madrugada.
albino santos
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