EU NÃO ARDO NAS SOMBRAS, CONSTRUO ALVORADAS!...

segunda-feira, 13 de abril de 2026

A NOITE DEMOROU-SE EM TI









A noite demorou-se em ti.
Não foi apenas passagem,
foi um fogo lento
como se a noite guardasse nos dedos
o rasto quente da tua pele.

Agora amanhece,
mas o teu corpo ainda conserva
o brilho húmido das horas proibidas,
e o quarto ainda respira
o calor dos teus gestos.

A luz fatigada
escorre na nudez do teu corpo.
E tu cintilas,   
como um corpo transpirado
num charco de luz.
A manhã nasce lá fora,
mas aqui dentro
é em ti que o desejo ainda canta.

 

albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor

sexta-feira, 10 de abril de 2026

UM OLHAR QUE VEM POR ATALHOS


 














Há um olhar que não pertence ao dia. Ele caminha entre sombras e silêncios, vem por atalhos que só a noite conhece. Não pede licença – insinua-se, desliza, toca o limiar do meu sono como quem acende uma chama num quarto escuro. E eu o sinto antes de o ver: uma vibração leve, um pressentimento que me agita. Vem sempre diferente, como se mudasse se rosto para não ser reconhecido. Às vezes é ternura, outras vertigem. Mas em todas as suas formas há um fascínio que se sente naquilo que nunca se tem por inteiro. E então, quando os ponteiros do tempo dormem profundamente, esse olhar chega silencioso como uma sombra. Rouba-me o sono como quem rouba um segredo. E eu, cúmplice do furto, deixo que me leve – porque há algo de doce em perder o repouso por uma presença que não se explica. No fundo, talvez eu nem queira dormir. Quero sentir o abismo doce desse olhar, o eco que deixa no corpo, o perfume que fica quando esse olhar se vai. Seduz-me o que não se toca, o que apenas visita – o olhar que todas as noites vem, por algum atalho, para me roubar o sono e me devolver à vida.



albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor

segunda-feira, 6 de abril de 2026

QUANDO TE ESCREVO






Quando te escrevo,
sinto na pele um dócil ardor.
Os dedos passam sobre as teclas
como se tocassem o fogo lento da noite.
E tu és o fruto
nos meus dedos a tremer.
Podemos cantar, voar – podemos morrer.

Percorro-te
como se não houvera bosque mais secreto
onde a sombra entra devagar;
como quem lê um poema raro,
linha a linha, como quem se despe.
Lume breve que arde a noite inteira.

E se te falo de amor,
não é um amor abstracto, ocasional,
é tão concreto como o deslizar da minha mão
sobre a tua pele.
Lento como um beijo que começa tímido
e termina torrencial.
E se aproximares os lábios da última sílaba,
vais sentir o calor que nela deixei
à espera desse beijo
que há-de inundar a minha boca.



albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor

sexta-feira, 3 de abril de 2026

UM SECRETO INSTANTE


 

Baixa comigo a luz da noite.
Não digas nada.
Há palavras que perturbam o que é sagrado.
Chega mais perto – assim!
Deixa que o mundo fique lá fora
como um casaco esquecido numa cadeira.
Aqui dentro,
somos apenas o escorrer infatigável do desejo.

Toco-te o rosto com dedos de lume
que a tua pele guarda em pequenas alvoradas,
e eu percorro-as devagar.
Não preciso de lua agora.
Nem do sol.
A única claridade que preciso
é a que nasce quando os teus olhos se fecharem
ao sentir a minha boca na tua.
Nesse secreto instante
o universo reduz-se ao espaço que existe
entre as nossas bocas antes do beijo.



albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor

terça-feira, 31 de março de 2026

O POEMA





Há palavras que já nascem com asas
mas és tu quem cria o espaço onde
a poesia acontece!
Fecha os olhos um instante.
Imagina que o mundo se cala
só para ouvir o que nasce entre nós:
talvez uma palavra ainda húmida
acabada de sair do escuro,
um nome sussurrado,
um rumor que não cessa de crescer.

E quando os olhos dizem “Sim”
o corpo estremece ligeiramente,
como o primeiro toque antes do suspiro.
Pequeno gesto,
mas um imenso passo
nos labirintos do coração.
Porque esse “ Sim” é a origem de tudo:
do beijo no limiar dos lábios,
da paixão que sobrevive no deserto
até sorver a última gota de água.

Depois…já não há volta.
A página arde e já respira.
O poema avança.
E nós – já estamos, amorosamente,
dentro dele!



albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor

sábado, 28 de março de 2026

TALVEZ O AMOR SEJA UM POEMA


 

Talvez o amor seja um poema – não
daqueles que se escrevem
meticulosamente,
mas daqueles que se vivem sem rascunho.
Um poema sem título,
que começa antes de sabermos ler os sinais
e termina muito depois da última linha.

O amor tem ritmo próprio,
às vezes é verso longo e profundo
que se estende por todo o horizonte.
Outras vezes é sílaba breve,
quase silêncio,
quase medo de dizer.
Há amores que rimam com eternidade
e outros que preferem
a rima imperfeita do momento.
Mas todos carregam metáforas no olhar,
porque amar é sempre ver no outro
muito mais do que o mundo vê.

Talvez o amor seja isso:
uma linguagem que nasce entre dois corpos,
uma sintaxe feita de olhares e espera,
uma pontuação de ausências e regressos.
E quando termina – se é que termina –
fica como ficam os grandes poemas:
não na página, mas na memória do peito
onde cada leitura dói,
ilumina e consola ao mesmo tempo!


albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor

quarta-feira, 25 de março de 2026

OS NÓS DO TEMPO





No vértice da noite não há lua.
Há apenas a ousadia do teu corpo
sobre a minha hesitação.
Desatamos os nós – não  
das mãos, mas do tempo.
O dia tinha-nos atado
com pequenas cordas invisíveis.

Quando a noite se abriu
como um fruto maduro
que treme nos ramos prestes a cair,
é aí que começa o amor:
na ternura das mãos, finalmente livres,
sem saberem bem o que fazer
com tanta madrugada.
Caem devagar, uma sobre a outra
como dois segredos cansados
de ser silêncio.

E o amor acontece –
não como um fogo súbito
mas como um nó que se desfaz
no lugar mais solitário da noite.
E ali ficamos, livres para o amor
como se nunca tivesse havido tempo
antes de nós!





albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor