EU NÃO ARDO NAS SOMBRAS, CONSTRUO ALVORADAS!...

sábado, 20 de junho de 2026

A FRÁGIL TEIA DOS DIAS...


Este será o meu próximo livro que será apresentado ao público no dia 25 de Julho ( sábado) pelas 16h00, na Casa Branca de Gramido. Um local de rara beleza situado na margem do rio Douro.

Todos estão desde já convidados para o evento. Será muito gratificante poder contar com a  V/ estimulante presença.

 

***  ***  ***

 

No conjunto de textos contidos nesta obra, descobriremos percursos de um novo encantamento, onde as palavras gravitam pelo fascinante mundo das emoções, onde tudo é tão próximo e intocável.

                      “Tudo o que vive à superfície dos dias parece eterno enquanto respira. Mas há sempre qualquer coisa à espreita – um desvio invisível, uma súbita mudança de luz, uma palavra dita tarde demais capaz de desfazer a arquitectura do quotidiano. Vivemos como quem atravessa uma ponte suspensa por fios de memória e hábito. Cada gesto repete o anterior para nos convencer de que existe continuidade, de que amanhã será apenas uma continuação dócil de hoje. No entanto, basta um golpe de vento. Um telefonema. Um silêncio prolongado. Basta o rasgão inesperado de um poema dentro do peito para tudo perder o nome no meio de sombras.
Porque tudo o que acontece “ na frágil teia dos dias” nunca nos pertence verdadeiramente. É apenas um vento de passagem – breve, luminoso e impossível de segurar.


*O acompanhamento da edição deste livro e a sua promoção, vai certamente retirar-me algum  tempo para estar convosco. Espero a V/ compreensão.


O AUTOR
albino santos


 

quarta-feira, 17 de junho de 2026

... SE UM ADEUS HOUVER









Ao sol débil e já tardio 
na ânsia de abraçar quanto podia
dei-te o mais secreto e estranho beijo.
Mas tanto exigimos às breves carícias
que nos perdemos na vertigem
do beijo amachucado
e ficamos sem mãos antes do tempo,
sem uma palavra,
sem um rumor de pálpebras.

Dissipou-se na pele
o perfume vivo dos nossos corpos.
Aturdidos em silêncio
tudo declinou e empalideceu
e veio o vento magoar-nos
com a frieza de olhares silenciosos.
E se um adeus houver
tudo se vai perder no rumor do vento,
por nada de eterno haver entre os lábios.





albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor

segunda-feira, 15 de junho de 2026

O RIO



 



Há muito que as minhas águas aprenderam o caminho para chegar até ti e nunca mais deixaram de correr na tua direcção. Em ti desaguam os rios da espera e os da esperança. Os que nascem serenos nas montanhas da manhã e os que transbordam nas tempestades da noite. Em ti chegam as correntes que escondo do mundo, carregadas de silêncios, memórias e perguntas que nunca ousei pronunciar. Entrego-te tudo o que passa por mim: as margens que construí para me proteger, as pontes que ergui para te alcançar, os reflexos de céu que transporto nas águas inquietas do meu peito.
Mas os rios também se cansam de correr sem saber se rumam ao mar ou ao deserto. Até quando as minhas águas hão-de procurar o teu horizonte? Até quando farei de ti a foz de tudo o que sou?

Porque há uma hora em que até os rios desejam repousar. Uma hora em que deixam de querer perder-se e começam a desejar encontrar-se. O rio que durante tanto tempo correu para encontrar a tua foz, começa a escutar o rumor distante das suas nascentes.



albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor

quinta-feira, 11 de junho de 2026

ONDE O MAR CANTA...







Fui eu quem traçou caminhos de fogo
sobre os teus silêncios,
quem abriu as janelas no teu corpo
para que a luz entrasse.
E em cada lugar onde estremeces
o prazer floresce
e tem o traço das minhas mãos.
Desenhei-te sem tinta, sem tela,
apenas com a ternura de quem ama.

Conheço o exacto instante
em que se liberta o teu suspiro,
o segundo breve
em que deixas de resistir
para floresceres nas minhas mãos.
Porque o prazer não nasce apenas
quando alguém navega o teu corpo
como quem navega o mar
sem o dominar nunca,
mas sabendo exactamente onde ele canta!



albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor

sexta-feira, 5 de junho de 2026

SONHEMOS ENQUANTO HÁ TEMPO AINDA...

  

Sonhemos enquanto há tempo ainda, porque o que é belo depressa se finda. 
Antes que a noite se dissolva na pálida cinza das horas, deixa que o silêncio nos envolva como um manto de veludo. Despe a pressa dos ombros, deixa cair a noite devagar sobre a pele.  
Toca-me, com dedos lentos, com olhos famintos, com essa ternura que faz o coração arder sem ruído. Há nos teus olhos um brilho quase triste, quase eterno, como jardins esquecidos pelo inverno à espera de Abril.
E quando a tua mão encontrar a minha, o mundo abranda – as taças repousam, os relógios hesitam e até o vento parece escutar-nos.

Ama-me. Com a delicadeza rara das coisas que não regressam. Encosta o teu rosto ao meu como quem protege uma chama contra a crueldade do tempo. Porque a beleza vive pouco, e o amor, quando verdadeiro, arde com uma luz serena que nenhuma madrugada consegue extinguir. Depois… se o destino quiser separar-nos, ficará ao menos esta memória: duas almas abraçadas na eternidade de um instante perfeito.


albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor


segunda-feira, 1 de junho de 2026

AMANHECER


 








O sol nasceu hoje no meu quarto. Não entrou pela janela – aconteceu. Como acontecem certas memórias que regressam sem aviso, como certos nomes que continuam a viver dentro de nós mesmo depois do silêncio. A madrugada ainda respirava devagar quando a luz começou a tocar as paredes, primeiro tímida, depois mais intensa, impossível de ignorar. Depois pousou sobre a cama desfeita, percorreu os livros esquecidos na mesa de cabeceira, os pequenos destroços invisíveis deixados por uma noite de insónia.

Havia qualquer coisa de diferente naquele amanhecer. Não sei explicar. Talvez porque o silêncio não pesava. Talvez porque, pela primeira vez em muito tempo, o vazio não me magoava. A luz caminhava pelo quarto como se já conhecesse o lugar. Tocou-me o rosto devagar, demorou-se nos meus lábios, aqueceu-me a alma como quem tenta salvar uma chama quase extinta.

Depois beijou-me a boca demoradamente. Foi um beijo lento, profundo, feito de amor e ternura. Um beijo capaz de suspender o tempo. Naquele instante, percebi que há ausências que nunca partem verdadeiramente. Apenas mudam de forma. Outras vezes tornam-se luz.

Fechei os olhos e deixei-me ficar imóvel, escutando o rumor da cidade a acordar. Lá fora, as pessoas corriam para os seus dias, os relógios continuavam cruéis. Mas ali dentro, o tempo tinha abrandado. Como se o mundo respeitasse a delicadeza daquela manhã. Sentia-te em tudo. No ar morno junto às cortinas, na poeira dourada suspensa nos raios de luz, no calor da luz misturado ao resto do meu sono. Na forma como o coração, às vezes, insiste em reconhecer alguém mesmo na ausência.

Então compreendi aquilo que talvez já soubesse desde sempre: certas pessoas não passam pela nossa vida – permanecem nela. Habitam-nos. Ficam escondidas na maneira como olhamos o céu, no silêncio que deixamos crescer antes de adormecer.
Por isso o sol nasceu no meu quarto esta manhã.
Por isso a luz parecia ter mãos.
Por isso o meu coração acordou menos cansado.
Porque o sol, hoje, tinha o teu nome!


albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor

quinta-feira, 28 de maio de 2026

INCANDESCÊNCIAS






 


Como sílaba incendiada no feno
és um rasgão de prata
no rumor vegetal das searas.
Inventas os gestos nas vagarosas sombras.
Propagas o fascínio
da íntima linguagem do amor
no sedutor resvalar das brisas.
Desfazes nas mãos a orografia das palavras
na precária eternidade da luz.

És a cicatriz petrificada da lava
ainda a arder de tanto ser hesitação.
És uma linda mariposa incendiando o poema!...


albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor