EU NÃO ARDO NAS SOMBRAS, CONSTRUO ALVORADAS!...

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

NO SILÊNCIO DA NOITE...

No silêncio da noite, a noite veste-se de seda e pousa sobre mim. No ar, o hálito da madrugada mistura-se com o cheiro da terra molhada, como se tivesse acabado de chover. Há rumores que não vêm do vento, mas de bocas invisíveis roçando a minha pele. Sons baixos como sussurros, quase beijos, que deslizam suavemente pelo meu corpo. As sombras movem-se como amantes que dançam sem música – mãos imaginárias contornam as minhas formas com lentidão, saboreando a distância antes de tocar. A lua brilha, oblíqua, espreita como amante impaciente, derramando luz dobre a pele como quem desnuda devagar.
A noite é como um corpo que me envolve, e cada rumor é um suspiro que se recusa a acabar. Porém… há um rumor diferente que tem a tua voz e a forma do teu corpo. E no lugar onde os meus olhos repousam e a alma se despe, são as tuas mãos que me encontram como destino. Vêm suaves como uma pluma atravessando véus de sono, como se o próprio universo te sussurrasse o caminho para chegares até mim.

E quando me tocas, algo em mim se acende. E tu, feita de desejo e madrugada, pintas constelações no meu peito com a ponta dos dedos, como se o meu corpo tivesse sido moldado aos teus contornos. E cada gesto teu sobre a minha pele, dá-me a secreta certeza de que à noite sempre voltarás. Porque há momentos de amor e prazer que não se perdem, vivem para sempre dentro de nós, quando o mundo inteiro dorme e nós nos encontramos, ternamente, no silêncio da noite.


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albino santos
Reservados Todos os Direitos de Autor

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

ENTRE SOMBRAS E SILÊNCIOS...


 













Foste o horizonte único do meu voo, o vértice da minha caminhada. Havia em ti qualquer coisa de mar ao entardecer, uma luz morna que me chamava sem palavras. E no entanto, nunca te tive diante dos meus olhos. Os nossos encontros aconteciam porque a distância entre nós nos impedia de existir.
E essa impossibilidade, tornava-se na mais fascinante e cruel realidade.
Entre sombras e silêncios aproximavas-te lentamente. A tua presença tocava-me sempre antes das mãos. Nos teus olhos cintilava um brilho de desejo ao qual eu respondia sem hesitar. Porém, nunca estiveste, verdadeiramente, nos meus braços, mas tantas vezes te desnudaste na minha cama para fazermos arder a noite.

Tu foste assim. Feita de impossibilidades. Uma amante feita de noite. Um corpo que aprendi a desvendar no escuro. Um encontro que nunca chegou a acontecer e que, ainda assim, deixou profundamente em mim a quase certeza de ter acontecido. E todas as manhãs, quando acordava, e tudo se desfazia ao primeiro clarão do amanhecer, sentia vontade de fechar as janelas, escurecer o quarto, simular a noite, para te encontrar outra vez e reinventar o prazer na luz transfigurada da manhã.

Foi assim a nossa história. Uma extensa sombra que o tempo vai calcinar.
E se algum dia me perguntarem onde termina o meu voo, talvez sorria e apenas responda:
 – Não termina! Voarei enquanto resistirem as asas!



albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor


domingo, 11 de outubro de 2026

NOITE SEM FREIO


 






A noite brinca no teu corpo,
teus olhos nos meus a fazer fogueira
fogo queimando o tempo,
tempo onde as horas se perdem
nas sombras da noite.
Noite sem freio!
Não quero acordar nem dormir,
quero a madrugada indefinida do amor
e sentir a tua língua
a roçar os meus pensamentos
como um cálido sussurro
por entre fiordes de ternura.
Um louco devaneio,
um poema sem rima, sem rumo…sem freio!






albino santos
Reservados Todos os Direitos de Autor

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

AMANHECER NA TUA BOCA...



 











O teu beijo é o primeiro pássaro,
a brisa que amanhece
no espaço ainda em fogo da minha pele.
E quando me beijas
com a manhã inteira dentro da boca
eu compreendo
que amar-te não é só atravessar contigo
o calor húmido da noite
onde os nossos corpos se entrelaçam.
É também saber que o amanhecer
também pode ser excitante…

Devagar, ergue-se o sol,
e eu beijo-te para celebrar o dia
que nasce amorosamente entre nós.
Os teus lábios – antes recolhidos
na sombra da noite – abrem-se em cor
e eu provo o dia a nascer na tua boca.



albino santos
( in "A Teia Frágil dos Dias")
* Reservados Todos os Direitos de Autor


segunda-feira, 5 de outubro de 2026

É ESPANTOSA A NOITE NO TEU ROSTO


 






É espantosa a noite no teu rosto.
Não a noite sombria dos medos
mas a noite profunda,
onde o silêncio respira
e tudo ganha profundidade.

Há em ti um crepúsculo lento,
Uma sombra que não se esconde – revela.
O teu olhar carrega estrelas solitárias
que só brilham
para quem se aproxima sem pressa,
como se já soubessem
onde o meu corpo hesita
e onde a minha vontade cresce.

A noite em ti é espantosa
porque é viva. Porque pulsa.
Porque me envolve antes do abraço,
e me deixa à mercê
do que ainda não aconteceu.
E quando sorris,
é como se o amanhecer tivesse decidido
nascer só para nós.



albino santos
( in A Frágil Teia Dos Dias )
Reservados Todos os Direitos de Autor


quinta-feira, 1 de outubro de 2026

AS SOMBRAS DA NOITE












Deixa sair de ti
um tempo que precisa renascer!
Olha além do traço do horizonte
que ilude as todas as distâncias.
Não fiques adormecida
pelos dias que passam,
pelos sons que se repetem,
pelo tempo que se gasta a olhar o nada.

Partilha o momento
onde a sensatez se despe de preconceitos
e vem navegar neste mar envolvente
sem rota definida onde declina
a ternura dos gestos… a força da vida.

Fecha-me as pálpebras queimadas
pelo nevoeiro da tarde
antes que as sombras da noite
sejam submersas pelas águas dos sonhos.



albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor


terça-feira, 29 de setembro de 2026

TUDO O QUE NÓS FOMOS...


 







Eu fui a fonte, a vertigem, o sol. Fui a água que te procurava na sede, o calor que se demorava na tua pele, a luz que entrava pelas fendas do teu silêncio. Fui impulso e demora, o lugar secreto onde te despias como o orvalho da manhã.

E tu foste o sonho. A miragem que aparecia quando eu fechava os olhos, a madrugada que se perdeu no vértice da noite, onde o impossível não existe. Eras essa forma cruel e bonita de existir dentro de mim, sem nunca, teres entrado inteiramente. Ainda me lembro de ti pelo cheiro, pelo calor, pela forma como o corpo reconhece aquilo que jamais esqueceu. Havia entre nós uma cumplicidade única. Um silêncio cheio de coisas por dizer, olhares que se demoravam longamente até os olhos se fecharem de desejo, mãos que conheciam o caminho sem jamais o percorrerem por completo. E, quando a distância se instalava entre nós, o desejo crescia e nós inventávamos tudo o que o corpo pedia.

Eu fui o sol. Tu a madrugada. Foi esse o nosso destino: Eu nascer em ti como luz, enquanto tu desaparecias em mim como sombra. Mas há sonhos que não terminam quando acordamos. Ficam suspensos no corpo como uma música que ninguém escuta. Ficam na memória dos dedos, no sabor imaginado de um beijo, naquele instante em que os olhos se fecham e, por uma fracção de segundo, acreditamos que o tempo pode voltar para trás. Eu, às vezes, ainda volto. Volto aquele lugar onde fomos possíveis. Onde eu era a fonte, vertigem , sol… e tu, antes de seres distância, eras a minha mais bela madrugada.



albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor