
Há
um olhar que não pertence ao dia. Ele caminha entre sombras e silêncios, vem
por atalhos que só a noite conhece. Não pede licença – insinua-se, desliza, toca
o limiar do meu sono como quem acende uma chama num quarto escuro. E eu o sinto
antes de o ver: uma vibração leve, um pressentimento que me agita. Vem sempre
diferente, como se mudasse se rosto para não ser reconhecido. Às vezes é
ternura, outras vertigem. Mas em todas as suas formas há um fascínio que se
sente naquilo que nunca se tem por inteiro. E então, quando os ponteiros do
tempo dormem profundamente, esse olhar chega silencioso como uma sombra.
Rouba-me o sono como quem rouba um segredo. E eu, cúmplice do furto, deixo que
me leve – porque há algo de doce em perder o repouso por uma presença que não
se explica. No fundo, talvez eu nem queira dormir. Quero sentir o abismo doce
desse olhar, o eco que deixa no corpo, o perfume que fica quando esse olhar se
vai. Seduz-me o que não se toca, o que apenas visita – o olhar que todas as
noites vem, por algum atalho, para me roubar o sono e me devolver à vida.
albino santos
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