Foste o horizonte único do meu
voo, o vértice da minha caminhada. Havia em ti qualquer coisa de mar ao
entardecer, uma luz morna que me chamava sem palavras. E no entanto, nunca te
tive diante dos meus olhos. Os nossos encontros aconteciam porque a distância
entre nós nos impedia de existir.
E essa impossibilidade, tornava-se na mais fascinante e cruel realidade.
Entre
sombras e silêncios aproximavas-te lentamente. A tua presença tocava-me sempre
antes das mãos. Nos teus olhos cintilava um brilho de desejo ao qual eu
respondia sem hesitar. Porém, nunca estiveste, verdadeiramente, nos meus braços,
mas tantas vezes te desnudaste na minha cama para fazermos arder a noite.
Tu foste assim. Feita de impossibilidades.
Uma amante feita de noite. Um corpo que aprendi a desvendar no escuro. Um
encontro que nunca chegou a acontecer e que, ainda assim, deixou profundamente
em mim a quase certeza de ter acontecido. E todas as manhãs, quando acordava, e
tudo se desfazia ao primeiro clarão do amanhecer, sentia vontade de fechar as
janelas, escurecer o quarto, simular a noite, para te encontrar outra vez e
reinventar o prazer na luz transfigurada da manhã.
Foi assim a nossa história. Uma extensa sombra que o
tempo vai calcinar.
E se algum dia me perguntarem onde termina o meu voo, talvez sorria e apenas
responda:
– Não termina! Voarei enquanto
resistirem as asas!
albino santos
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