EU NÃO ARDO NAS SOMBRAS, CONSTRUO ALVORADAS!...

segunda-feira, 1 de junho de 2026

AMANHECER


 








O sol nasceu hoje no meu quarto. Não entrou pela janela – aconteceu. Como acontecem certas memórias que regressam sem aviso, como certos nomes que continuam a viver dentro de nós mesmo depois do silêncio. A madrugada ainda respirava devagar quando a luz começou a tocar as paredes, primeiro tímida, depois mais intensa, impossível de ignorar. Depois pousou sobre a cama desfeita, percorreu os livros esquecidos na mesa de cabeceira, os pequenos destroços invisíveis deixados por uma noite de insónia.

Havia qualquer coisa de diferente naquele amanhecer. Não sei explicar. Talvez porque o silêncio não pesava. Talvez porque, pela primeira vez em muito tempo, o vazio não me magoava. A luz caminhava pelo quarto como se já conhecesse o lugar. Tocou-me o rosto devagar, demorou-se nos meus lábios, aqueceu-me a alma como quem tenta salvar uma chama quase extinta.

Depois beijou-me a boca demoradamente. Foi um beijo lento, profundo, feito de amor e ternura. Um beijo capaz de suspender o tempo. Naquele instante, percebi que há ausências que nunca partem verdadeiramente. Apenas mudam de forma. Outras vezes tornam-se luz.

Fechei os olhos e deixei-me ficar imóvel, escutando o rumor da cidade a acordar. Lá fora, as pessoas corriam para os seus dias, os relógios continuavam cruéis. Mas ali dentro, o tempo tinha abrandado. Como se o mundo respeitasse a delicadeza daquela manhã. Sentia-te em tudo. No ar morno junto às cortinas, na poeira dourada suspensa nos raios de luz, no calor da luz misturado ao resto do meu sono. Na forma como o coração, às vezes, insiste em reconhecer alguém mesmo na ausência.

Então compreendi aquilo que talvez já soubesse desde sempre: certas pessoas não passam pela nossa vida – permanecem nela. Habitam-nos. Ficam escondidas na maneira como olhamos o céu, no silêncio que deixamos crescer antes de adormecer.
Por isso o sol nasceu no meu quarto esta manhã.
Por isso a luz parecia ter mãos.
Por isso o meu coração acordou menos cansado.
Porque o sol, hoje, tinha o teu nome!


albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor

quinta-feira, 28 de maio de 2026

INCANDESCÊNCIAS






 


Como sílaba incendiada no feno
és um rasgão de prata
no rumor vegetal das searas.
Inventas os gestos nas vagarosas sombras.
Propagas o fascínio
da íntima linguagem do amor
no sedutor resvalar das brisas.
Desfazes nas mãos a orografia das palavras
na precária eternidade da luz.

És a cicatriz petrificada da lava
ainda a arder de tanto ser hesitação.
És uma linda mariposa incendiando o poema!...


albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor


domingo, 24 de maio de 2026

NOCTURNO


 







Antes que a noite se dissolva
na pálida cinza das horas,
deixa que o silêncio nos envolva
como um manto de veludo.
Despe a pressa dos ombros,
deixa cair a noite devagar sobre a pele.
Toca-me, com dedos lentos,
olhos famintos
e com essa ternura
que faz o coração arder sem ruído.

Há nos teus olhos
um brilho quase triste, quase eterno,
como jardins esquecidos
pelo inverno à espera de Abril.
E quando a tua mão encontrar a minha
despe-te como o orvalho
na concha da manhã
e dá à minha boca fatigada
os teus lábios para adormecer.




albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor

segunda-feira, 18 de maio de 2026

O FOGO DAS PALAVRAS


Há palavras que não foram feitas para serem ditas em voz alta. Foram feitas para se dizerem baixinho, perto da pele, entre a respiração ofegante e o desejo, nesse lugar invisível, onde com o aroma de cada sílaba no lugar da boca se faz lume. Porque há bocas que não beijam apenas. Aproximam-se devagar e deixam no ar o perfume morno das palavras ainda por dizer. Cada sílaba trás consigo um calor próprio: umas ardem lentas, como brasas escondidas sobre as cinzas; outras chegam abruptas, faíscas breves capazes de incendiar uma noite inteira. E eu guardarei cada uma delas. Não pelo seu significado exacto, mas pelo seu aroma. Pela forma como certas palavras permanecem depois de pronunciadas, como um vinho generoso na memória da língua, como fumo impregnado na roupa após um fogo intenso. Há vozes que deixam cheiro. Há nomes que continuam a respirar dentro de nós mesmo depois de terem sido ditos pela última vez.
No lugar da boca – esse lugar vulnerável entre o silêncio e o desejo – acenderei um fogo. Não um fogo devastador, mas aquele fogo íntimo que aquece o frio da ausência. Um fogo feito de murmúrios, de pausas, de vogais demoradas na saliva do desejo. Porque o amor, às vezes começa exactamente aí: na maneira como alguém pronuncia o nosso nome como se estivesse a tocar-nos. Então, vou arder lentamente. Como uma carta esquecida junto à chama de uma vela. Como que aceita finalmente o calor no íntimo despir das suas luzes. Como quem descobre que certas chamas não ferem – iluminam. Porque há quem acenda o desejo dentro do corpo apenas com a ternura de uma palavra dita com os lábios encostados ao ouvido.
Com o aroma de cada sílaba no lugar da boca farei lume, até que a noite tenha o teu cheiro.





albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor

quinta-feira, 14 de maio de 2026

PINTURA













Há corpos que não se tocam com as mãos, tocam-se com os olhos. E eu quero habitar-te assim, como quem se perde no fogo de um olhar. Ser uma tela aberta diante dos teus olhos, crua, silenciosa, à espera da fúria doce dos teus desejos. Queria que me pintasses sem piedade, com as cores mais intensas do desejo, com os vermelhos inquietos da luxúria, a clara sombra onde pousam os lábios e os dourados febris das vontades que nunca confessaste em voz alta.
Que os teus dedos sejam os pincéis embriagados de noite, deslizando sobre a pele e eu, imóvel, deixaria que o teu desejo escolhesse as tonalidades: O azul das carícias, o negro húmido do desejo, o púrpura quase sagrado daquilo que acontece quando nos encontramos no torrencial silêncio da noite, onde há amores que beijam – e há amores que devoram. O teu, tem sombras suaves na carne da cor, luxúria mordendo cada sombra até fazê-la gemer luz. E eu aceitaria tudo. A tinta em excesso, derramada pelo teu ímpeto, ser obra inacabada pendurada no aconchego do teu peito, pulsando ainda como se cada desejo teu fosse uma nova camada de tinta sobre todas as minhas vontades.
No fim, talvez ninguém entendesse o quadro, mas haveriam marcas de fogo suficientes para que as cinzas se reacendessem para uma nova pintura.


albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor

terça-feira, 12 de maio de 2026

PRIMAVERAS...




 



Há estações que se anunciam devagar, como um perfume esquecido numa roupa antiga, como a luz morna que escorre pelas cortinas antes mesmo do dia nascer. A primavera, talvez seja isso mesmo: o instante em que o desejo desperta discretamente, sem fazer ruído, como as primeiras luzes das colinas.
Ela sentia-o nos pequenos detalhes. No modo como o silêncio se demorava entre duas palavras. Na maneira quase cruel como certos olhares tocavam mais fundo do que as mãos.
Havia qualquer coisa prestes a acontecer – e isso tornava tudo mais excitante.

As rosas no jardim, ainda estavam fechadas, húmidas de orvalho. Mesmo assim, já exalavam um perfume leve, como se guardassem para o momento certo a beleza que carregavam por dentro. Também o amor possui esse segredo – oculta-se na espera, deixa que a noite cresça nas suas margens nuas, até que as pétalas húmidas das rosas se ofereçam amorosamente à luz do amanhecer.
E haviam os lábios... Sempre os lábios. Habitadas fronteiras entre aquilo que se diz e aquilo que se deseja dizer. Quantas vezes o beijo começa muito antes da boca? Talvez tudo comece num breve tremor, no cuidado lento com que alguém pronuncia o nome do outro, ou no instante em que os dois percebem que já não pertencem inteiramente à noite. Ela gostava dessa hesitação excitante… do quase. Ela sabia que quando o desejo amadurece devagar, torna-se mais intenso, como um poema escrito à média luz, onde cada palavra parece arder discretamente na alvura da página.


albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor

sexta-feira, 8 de maio de 2026

OS SONHOS






 












Quando a noite chega pálida, exausta de carregar nos ombros a dureza cruel dos dias calcinados, os sonhos erguem-se das profundezas do silêncio como animais famintos.
Arrastam consigo o hálito húmido das ruinas interiores e o perfume gasto e obscuro das coisas esquecidas dentro da alma.
Avançam pelas cidades já adormecidas como sombras incendiadas, procurando um corpo ardente entre as figuras sonâmbulas de um desejo errante. Um corpo verdadeiro. Um corpo capaz de suportar o peso do delírio, a urgência do amor, a vertigem de existir sem máscaras. Mas tudo o que encontram são rostos gastos pela rotina dos dias, bocas cheias de silêncios, olhos onde a esperança já secou. E no meio dessa noite devastada, os sonhos continuam a procurar – obstinados, febris – alguém que ainda conserve fogo dentro do peito.

E quando finalmente encontram um olhar ainda aceso na escuridão – um olhar capaz de incendiar a noite inteira – o silêncio torna-se ainda mais profundo. O desejo abre então as suas asas, como se duas solidões, depois de atravessarem desertos intermináveis, finalmente se encontrassem. E nesse encontro, os sonhos deixam de vaguear como espectros famintos. Tornam-se quase reais. A noite já não é um território de perda, mas um lugar de revelação – um espaço onde o desejo encontra, finalmente, um corpo ardente que se deixa envolver no calor das suas asas.
Talvez seja por isso que continuamos a sonhar, porque haverá sempre alguém, carente de sonhos, de amor e de beijos, que abre o peito aceso na escuridão, e dizer quase num murmúrio:

Entra. Aqui ainda existe um fogo que quer arder intensamente.



albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor