Há corpos que não se tocam com
as mãos, tocam-se com os olhos. E eu quero habitar-te assim, como quem se perde
no fogo de um olhar. Ser uma tela aberta diante dos teus olhos, crua,
silenciosa, à espera da fúria doce dos teus desejos. Queria que me pintasses
sem piedade, com as cores mais intensas do desejo, com os vermelhos inquietos
da luxúria, a clara sombra onde pousam os lábios e os dourados febris das vontades que nunca confessaste em voz alta.
Que os teus dedos sejam os
pincéis embriagados de noite, deslizando sobre a pele e eu, imóvel, deixaria
que o teu desejo escolhesse as tonalidades: O azul das carícias, o negro húmido
do desejo, o púrpura quase sagrado daquilo que acontece quando nos encontramos
no torrencial silêncio da noite, onde há amores que beijam – e há amores que
devoram. O teu, tem sombras suaves na carne da cor, luxúria mordendo cada
sombra até fazê-la gemer luz. E eu aceitaria tudo. A tinta em excesso,
derramada pelo teu ímpeto, ser obra inacabada pendurada no aconchego do teu
peito, pulsando ainda como se cada desejo teu fosse uma nova camada de tinta
sobre todas as minhas vontades.
No fim, talvez ninguém entendesse o quadro, mas haveriam marcas de fogo
suficientes para que as cinzas se reacendessem para uma nova pintura.
albino santos
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