EU NÃO ARDO NAS SOMBRAS, CONSTRUO ALVORADAS!...

quarta-feira, 18 de março de 2026

TUDO EM TI É MIRAGEM, VERTIGEM, VIAGEM...


 




Miragem é o teu corpo na penumbra
desenhada pela luz
como se a noite te tivesse escolhido
para partilhares comigo a luz das estrelas.
E quando te aproximas,
os meus dedos hesitam um segundo
à tentação de reconhecer cada centímetro.

Vertigem é aproximar-me.
É sentir o calor do teu corpo
como quem chega perto das chamas
e já não sabe se quer recuar ou arder.
Os teus olhos não olham – despem.
E no toque quase distraído da tua mão
há um itinerário secreto
que me conduz à sombra mais funda de ti.

Viagem é a tua pele sobre a minha
onde o tempo perde as horas e o nome.
É a lenta descoberta
quando os meus dedos te escrevem
em silêncio.
Em ti, o desejo não é pressa – é maré.
Sobe devagar, envolve,
e quando me dou conta
Já fui arrastado na onda onde me afundo.



albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Auror

segunda-feira, 16 de março de 2026

ESBELTO ERA O DIA... ESBELTA FOI A NOITE...





"Esbelto era o dia em que te encontrei.
A
ssim esbelta era a noite em que te despi."

Entre esses dois momentos
cresceu uma febre silenciosa,
um desejo súbito
que o teu olhar acendeu no meu peito.

O dia guardava-te envolta numa luz clara que se derramava pelo teu corpo.
Eu via-te – e no entanto
era como se já te imaginasse na penumbra lenta da noite.
Porque a noite tem esse dom:
desata os nós do mundo
aproxima os corpos lentamente
e transforma o silêncio num lugar
onde os corpos se abrem para o esplendor.

Quando te despi
foi como abrir uma porta secreta
que sempre existira dentro de mim.
As minhas mãos avançaram devagar
com a ternura de quem descobre um segredo que arde.
Havia nos teus olhos um abismo doce
e eu mergulhava nele sem querer regressar.
Naquele instante,
o meu mundo era apenas 
o esplendor do teu corpo nos meus dedos
o tremor breve da tua respiração
e o meu nome quase perdido
entre os teus lábios.

Esbelto fora o dia em que te encontrei.
Assim esbelta foi a noite em que te despi.



albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor

quinta-feira, 12 de março de 2026

O AMOR...


 







O amor ás vezes é luz que nasce no olhar
como manhã depois da chuva,
clara, quente, imprevisível.
Caminha pelos dias
acendendo pequenas estrelas
nas coisas simples:
um gesto,
um sorriso,
um nome dito devagar,
o canto súbito de um pássaro.
É apenas a sombra de um dia que passou.

Mas se a sombra chega
com o desejo pousado na alma,
o amor não se perde,
fica guardado como brasa sob a cinza,
esperando o sopro certo para voltar a arder.
Porque quem ama
nunca esquece que dentro do peito
há sempre um pedaço de sol à espera
de arder outra vez.



albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor

segunda-feira, 9 de março de 2026

Para ti...






Para ti, que chegas com frases ousadas
como quem deixa as janelas abertas
para o vento entrar,
sinto em ti uma coragem suave,
uma maneira de tocar as palavras
sem as quebrar
como se soubesses que elas respiram.

Não pedes pouco – pedes fogo,
pedes maré cheia,
pedes que o texto derrame verdade.
Vejo-te como quem acende a luz
numa noite sem lua.
E há ecos, há vozes que tropeçam,
há espaços nus,
mas já existe calor, e lábios a querer voar.

Que nunca te falte essa inquietação bonita
essa fome de sentir,
esse modo de transformar desejo
em impulso criador, pleno de ousadia.
E se algum dia duvidares – lembra-te:
Há pessoas que lêem poemas.
E há outras – como tu – que que os inspiram!



albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor

sexta-feira, 6 de março de 2026

A REBELDIA DO POEMA ( II )


 “ A poesia talvez seja a célula do meu corpo que em vez de viver se transformou em escrita”.


Essa célula rebelde que se fez escrita
agora arde!
Pulsa em silêncio,
é um coração em motim
batendo contra as paredes do peito
como quem exige o céu.

Transformou-se em paixão,
já aprendeu a morrer
e arde na sua rebeldia, sem sombra
nem mágoa.
Já não se divide em metáforas;
estremece em desejos com carícias nas mãos.
Não respira vírgulas;
acaricia o vento na delícia súbita
de ser brisa. Também voa!
Se antes era brasa escondida
sob a língua.
agora é chama aberta,
dessas que queimam, devassam
e não param de crescer.
Já não transforma a dor
em alfabeto – ama no ardor indizível das palavras.
Não faz da ausência morada permanente,
vai perder-se no prazer onde
a sombra entra devagar.

E o corpo que antes tolerava a rebelião
discreta do poema,
rende-se inteiro, sem reservas.
Porque a paixão não quer ser lida.
Quer ser vivida,
com sofreguidão,
intensamente,
até ao limite da sua combustão.




albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor

terça-feira, 3 de março de 2026

A REBELDIA DO POEMA ( I )


"A poesia talvez seja a célula do meu corpo 
que em vez de viver
se transformou em escrita".
Há em mim uma célula invisível
que se esconde em silêncio.
Não circula no sangue – colecciona sílabas.

Enquanto as outras células cumprem o destino humilde de ser corpo,
há uma que se recusa:
divide-se em metáforas, respira vírgulas, alimenta-se de pura rebeldia.
Talvez tenha sido erro da natureza
ou distracção dos deuses – como
se Prometeu, cansado do fogo,
me tivesse deixado uma brasa
escondida sob a língua.

Essa célula não cicatriza, não adormece,
não aprende a morrer.
Transforma a dor em alfabeto,
o amor em  agua corrente,
a ausência em morada permanente.
E quando o amor me toca,
ela se acende… cintila!
Quando o amor me fere,
ela floresce.

E assim vou vivendo
com esta pequena rebelião biológica:
um corpo que insiste em ser normal
e uma célula – teimosa, luminosa –
que insiste em ser poema!



albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

AMANHECER


 

O teu beijo é o primeiro pássaro,
e a brisa que amanhece
no espaço ainda em fogo da minha pele.
E quando me beijas
com a manhã inteira dentro da boca,
eu compreendo
que amar-te não é só atravessar contigo
o calor húmido da noite
onde os nossos corpos se entrelaçam.
É também saber que o amanhecer
também pode ser excitante...
Devagar, ergue-se o sol,
e eu beijo-te para celebrar o dia
que nasce amorosamente entre nós.
Os teus lábios – antes recolhidos na sombra
da noite – abrem-se em cor
e eu provo o dia a nascer na tua boca.




albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor