Diz-nos Rainer Maria Rilke:
“Hoje tudo é
ontem. O ontem é uma parábula onde o poeta, vencido pelo sono adormeceu. Mas um
dia, o poeta acorda para um amanhã que sonhou eterno… e voltou.”
E tal como Rilke,
também eu volto! Volto ao que me investe de ímpeto e de afecto. Volto ao rumor
das linhas solitárias. De sonho e vertigem. Volto-me às minhas crenças. Ao
inconformismo, que é congénito de todos os poetas. Volto como quem volta de uma
grande viagem. Como quem, por fim, volta ao colo materno sugando o bico leitoso
do seio da mãe.
Volto para contemplar tudo
aquilo que eu já contemplei. Ao mesmo argumento, às mesmas dúvidas, à palavra
convulsa, impetuosa. Palavra espasmo fora de hora, acrescentando o divino que a
gente nunca sabe se existe. Palavra que sai fora de todas as lógicas, indo ser
livre, amando e sofrendo entre sonhos e esquecimentos. Volto-me para o confuso.
Franco. Imprevisível. Volto para o solitário do poeta.
Volto. Mais feliz, sim! Mais
urgente. Mais afectivo. Como um coreógrafo da mente que dança com o sentimento
dos outros. Como uma sombra cansada de sombrear o verde da montanha, escorrendo
o verde da tarde. E se eu tento descrever o que vejo - a tarde entardecendo -
eu escrevo o verde nos meus versos, que também são de esperança. Ou minto a
paisagem e coloro de negro a sombra vegetando o monte. Sem argumento. Sem
minúcias.
Então descubro que escrevo o
egoísmo da mente, como se eu visse por dentro todas as paisagens do mundo. Cada
passo que eu dou é um raio de sol que me atinge acentuando o brilho dos meus
olhos. E a boca preenchida pelo sorriso, ou por um beijo arredio que alguém por
esquecimento deixou na minha boca. Uma boca num lugar sem data!
O Autor
albino santos