EU NÃO ARDO NAS SOMBRAS, CONSTRUO ALVORADAS!...

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

O PERFUME


O perfume exala da sombra do lírio
e abre-se docemente à luz do desejo.
Há um silêncio branco no seu cálice
onde repousa o tempo extenuado.

A noite inclina-se para beber-lhe o aroma
e a lua aprende a demorar-se
no esplendor da pele,
em redor do arbusto de fogo
onde começa a ternura.

Entre as pétalas, o corpo hesita,
sabendo que florir é também arder.
Mas o lírio aceita – feliz e vulnerável -
o fogo ardente desse instante.

E quando a manhã chega entre a bruma,
já não sabe se foi sonho,
porque o aroma perfumado
aprendeu a ficar para sempre!



albino santos
*Reservados Todos os Direitos de Autor

sábado, 27 de dezembro de 2025

É ESPANTOSA A NOITE NO TEU ROSTO


                                               É espantosa a noite no teu rosto.
                                               Não a noite sombria dos medos
                                               mas a noite profunda, onde o silêncio respira
                                               e tudo ganha profundidade.

                                               Há em ti um crepúsculo lento,
                                               Uma sombra que não se esconde – revela.
                                               O teu olhar carrega estrelas solitárias,
                                               dessas que só brilham
                                               para quem se aproxima sem pressa,
                                               como se já soubessem
                                               onde o meu corpo hesita
                                               e onde a minha vontade cresce.

                                               E, quando te olho,
                                               é como entrar num quarto onde a luz
                                               quase se apaga, para que os teus gestos
                                               falem mais alto que as palavras.

                                               A noite em ti é espantosa
                                               porque é viva. Porque pulsa.
                                               Porque me envolve antes do abraço,
                                               me desnuda antes do gesto
                                               e me deixa à mercê do que ainda não aconteceu.
                                               E quando sorris,
                                               é como se o amanhecer tivesse decidido
                                               nascer só para mim.

 

albino santos
*Reservados Todos os Direitos de Autor

domingo, 21 de dezembro de 2025

FELIZ NATAL 2025 PARA TODOS !...

Nesta vessão de 1962, Torga tinha já uma visão que se compagina, tão nua, intensa e dolorosamente com a realidade actual. É este o fascínio da Poesia, que leva o Poeta a projectar no tempo as suas convicções de uma forma pueril, mas tão absolutamente reais!


Um anjo imaginado
um anjo dialéctico, actual,
ergueu a mão e disse:
- É noite de Natal, paz à imaginação!
E todo o ritual que antecede o milagre habitual
perdeu a exaltação.
Em vez de excelsos hinos de confiança
no mistério divino,
e de mirra, incenso e oiro
derramados no presépio vazio,
duas perguntas brancas,
regeladas como a neve que cai,
e breves como o vento
que entra por uma fresta, quezilento,
redemoinha e sai:

- À volta da lareira, quantas almas se aquecem,
fraternalmente?
- Quantas desejam que o Menino venha ouvir,
humildemente,
o lancinante crepitar da lenha?



Miguel Torga ( escrito em S. Martinho de Anta em 24 de Dezembro de 1962)
In Poesia Completa / Edições D. Quixote.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

VOLTO


 

Diz-nos Rainer Maria Rilke:

 

“Hoje tudo é ontem. O ontem é uma parábula onde o poeta, vencido pelo sono adormeceu. Mas um dia, o poeta acorda para um amanhã que sonhou eterno… e voltou.”

E tal como Rilke, também eu volto! Volto ao que me investe de ímpeto e de afecto. Volto ao rumor das linhas solitárias. De sonho e vertigem. Volto-me às minhas crenças. Ao inconformismo, que é congénito de todos os poetas. Volto como quem volta de uma grande viagem. Como quem, por fim, volta ao colo materno sugando o bico leitoso do seio da mãe.

Volto para contemplar tudo aquilo que eu já contemplei. Ao mesmo argumento, às mesmas dúvidas, à palavra convulsa, impetuosa. Palavra espasmo fora de hora, acrescentando o divino que a gente nunca sabe se existe. Palavra que sai fora de todas as lógicas, indo ser livre, amando e sofrendo entre sonhos e esquecimentos. Volto-me para o confuso. Franco. Imprevisível. Volto para o solitário do poeta.

Volto. Mais feliz, sim! Mais urgente. Mais afectivo. Como um coreógrafo da mente que dança com o sentimento dos outros. Como uma sombra cansada de sombrear o verde da montanha, escorrendo o verde da tarde. E se eu tento descrever o que vejo - a tarde entardecendo - eu escrevo o verde nos meus versos, que também são de esperança. Ou minto a paisagem e coloro de negro a sombra vegetando o monte. Sem argumento. Sem minúcias.

Então descubro que escrevo o egoísmo da mente, como se eu visse por dentro todas as paisagens do mundo. Cada passo que eu dou é um raio de sol que me atinge acentuando o brilho dos meus olhos. E a boca preenchida pelo sorriso, ou por um beijo arredio que alguém por esquecimento deixou na minha boca. Uma boca num lugar sem data!


O Autor
albino santos