Quando a noite chega pálida,
exausta de carregar nos ombros a dureza cruel dos dias calcinados, os sonhos
erguem-se das profundezas do silêncio como animais famintos.
Arrastam consigo o
hálito húmido das ruinas interiores e o perfume gasto e obscuro das coisas esquecidas
dentro da alma.
Avançam pelas cidades já adormecidas como sombras incendiadas,
procurando um corpo ardente entre as figuras sonâmbulas de um desejo errante.
Um corpo verdadeiro. Um corpo capaz de suportar o peso do delírio, a urgência
do amor, a vertigem de existir sem máscaras. Mas tudo o que encontram são
rostos gastos pela rotina dos dias, bocas cheias de silêncios, olhos onde a
esperança já secou. E no meio dessa noite devastada, os sonhos continuam a
procurar – obstinados, febris – alguém que ainda conserve fogo dentro do peito.
E quando finalmente encontram um
olhar ainda aceso na escuridão – um olhar capaz de incendiar a noite inteira –
o silêncio torna-se ainda mais profundo. O desejo abre então as suas asas, como
se duas solidões, depois de atravessarem desertos intermináveis, finalmente se
encontrassem. E nesse encontro, os sonhos deixam de vaguear como espectros
famintos. Tornam-se quase reais. A noite já não é um território de perda, mas
um lugar de revelação – um espaço onde o desejo encontra, finalmente, um corpo
ardente que se deixa envolver no calor das suas asas.
Talvez seja por isso que
continuamos a sonhar, porque haverá sempre alguém, carente de sonhos, de amor e
de beijos, que abre o peito aceso na escuridão, e dizer quase num murmúrio:
Entra. Aqui ainda existe um
fogo que quer arder intensamente.
albino santos
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Precioso, sin más adornos... Una belleza. Un abrazo, Albino
ResponderEliminarOlá caro A.S.
ResponderEliminarQue texto intenso e bonito. Dá aquela sensação de que, mesmo depois de tantos silêncios e desencontros, ainda existe alguém disposto a manter o fogo aceso dentro do peito.
Eu acredito nos sonhos.
Bom final de semana meu amigo poeta.
Beijo!