Sinto-me um deserto vasto e
silencioso, onde o tempo se deita sobre as dunas como um véu quente, ondulando
entre memórias. Há em mim uma sede quase mineral, que não se apaga com a
passagem dos dias nem com a ilusão das miragens. Caminho por mim mesmo como
quem procura um sinal ou uma nascente escondida no labirinto interminável e
rumoroso da memória.
E então vens tu – não como uma chuva tímida, mas como um rio impetuoso, cheio,
indomável. O teu corpo trás a força da corrente, trás fulgor, trás vida. E
quando te aproximas, o deserto em mim começa a estremecer, como se cada grão de
areia conhecesse finalmente o seu destino. Perco-me nesse fluxo, cedo ao teu
ímpeto, deixo de ser margem e dissolvo-me nas tuas águas. E aquilo que antes
era árido, torna-se fértil, pulsante, infinito. Cada instante contigo é excesso
– de calor, de presença, de desejo – como se o mundo inteiro se contraísse
nesse encontro onde as margens já não existem. Sedento de ti, ergo-me até ao
limite do que posso sentir, e bebo o horizonte como quem bebe a madrugada –
lenta, densa, inevitável. Há um sabor em ti que não se esgota, uma urgência que
não se apaga, mesmo depois de terminarem todos os instantes.
Depois… fica o eco. O calor que não arrefece. A memória do teu corpo ainda a
correr no meu, como um rio que se recusa a desaparecer. E eu permaneço, à beira
de mim mesmo, desejando essa inundação que transforma o deserto em vida, e o
desejo em infinito.
albino santos
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