O sol nasceu hoje no meu
quarto. Não entrou pela janela – aconteceu. Como acontecem certas memórias que
regressam sem aviso, como certos nomes que continuam a viver dentro de nós
mesmo depois do silêncio. A madrugada ainda respirava devagar quando a luz começou
a tocar as paredes, primeiro tímida, depois mais intensa, impossível de
ignorar. Depois pousou sobre a cama desfeita, percorreu os livros esquecidos na
mesa de cabeceira, os pequenos destroços invisíveis deixados por uma noite de
insónia.
Havia qualquer coisa de
diferente naquele amanhecer. Não sei explicar. Talvez porque o silêncio não
pesava. Talvez porque, pela primeira vez em muito tempo, o vazio não me magoava.
A luz caminhava pelo quarto como se já conhecesse o lugar. Tocou-me o rosto
devagar, demorou-se nos meus lábios, aqueceu-me a alma como quem tenta salvar
uma chama quase extinta.
Depois beijou-me a boca
demoradamente. Foi um beijo lento, profundo, feito de amor e ternura. Um beijo
capaz de suspender o tempo. Naquele instante, percebi que há ausências que
nunca partem verdadeiramente. Apenas mudam de forma. Outras vezes tornam-se
luz.
Fechei os olhos e deixei-me
ficar imóvel, escutando o rumor da cidade a acordar. Lá fora, as pessoas corriam
para os seus dias, os relógios continuavam cruéis. Mas ali dentro, o tempo
tinha abrandado. Como se o mundo respeitasse a delicadeza daquela manhã. Sentia-te
em tudo. No ar morno junto às cortinas, na poeira dourada suspensa nos raios de
luz, no calor da luz misturado ao resto do meu sono. Na forma como o coração,
às vezes, insiste em reconhecer alguém mesmo na ausência.
Então compreendi aquilo que
talvez já soubesse desde sempre: certas pessoas não passam pela nossa vida –
permanecem nela. Habitam-nos. Ficam escondidas na maneira como olhamos o céu,
no silêncio que deixamos crescer antes de adormecer.
Por isso o sol nasceu no meu quarto esta manhã.
Por isso a luz parecia ter mãos.
Por isso o meu coração acordou menos cansado.
Porque o sol, hoje, tinha o teu nome!
albino santos
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