Sonhemos enquanto há tempo
ainda, porque o que é belo depressa se finda.
Antes que a noite se dissolva na pálida cinza das horas, deixa que o silêncio
nos envolva como um manto de veludo. Despe a pressa dos ombros, deixa cair a
noite devagar sobre a pele. Toca-me, com dedos lentos, com olhos famintos, com
essa ternura que faz o coração arder sem ruído. Há nos teus olhos um brilho
quase triste, quase eterno, como jardins esquecidos pelo inverno à espera de
Abril.
E quando a tua mão encontrar a minha, o mundo abranda – as taças
repousam, os relógios hesitam e até o vento parece escutar-nos.
Ama-me. Com a delicadeza rara das coisas que não regressam. Encosta o teu rosto
ao meu como quem protege uma chama contra a crueldade do tempo. Porque a beleza
vive pouco, e o amor, quando verdadeiro, arde com uma luz serena que nenhuma
madrugada consegue extinguir. Depois… se o destino quiser separar-nos, ficará
ao menos esta memória: duas almas abraçadas na eternidade de um instante perfeito.
albino santos
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