EU NÃO ARDO NAS SOMBRAS, CONSTRUO ALVORADAS!...

sexta-feira, 8 de maio de 2026

OS SONHOS






 












Quando a noite chega pálida, exausta de carregar nos ombros a dureza cruel dos dias calcinados, os sonhos erguem-se das profundezas do silêncio como animais famintos.
Arrastam consigo o hálito húmido das ruinas interiores e o perfume gasto e obscuro das coisas esquecidas dentro da alma.
Avançam pelas cidades já adormecidas como sombras incendiadas, procurando um corpo ardente entre as figuras sonâmbulas de um desejo errante. Um corpo verdadeiro. Um corpo capaz de suportar o peso do delírio, a urgência do amor, a vertigem de existir sem máscaras. Mas tudo o que encontram são rostos gastos pela rotina dos dias, bocas cheias de silêncios, olhos onde a esperança já secou. E no meio dessa noite devastada, os sonhos continuam a procurar – obstinados, febris – alguém que ainda conserve fogo dentro do peito.

E quando finalmente encontram um olhar ainda aceso na escuridão – um olhar capaz de incendiar a noite inteira – o silêncio torna-se ainda mais profundo. O desejo abre então as suas asas, como se duas solidões, depois de atravessarem desertos intermináveis, finalmente se encontrassem. E nesse encontro, os sonhos deixam de vaguear como espectros famintos. Tornam-se quase reais. A noite já não é um território de perda, mas um lugar de revelação – um espaço onde o desejo encontra, finalmente, um corpo ardente que se deixa envolver no calor das suas asas.
Talvez seja por isso que continuamos a sonhar, porque haverá sempre alguém, carente de sonhos, de amor e de beijos, que abre o peito aceso na escuridão, e dizer quase num murmúrio:

Entra. Aqui ainda existe um fogo que quer arder intensamente.



albino santos
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2 comentários:

  1. Precioso, sin más adornos... Una belleza. Un abrazo, Albino

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  2. Olá caro A.S.
    Que texto intenso e bonito. Dá aquela sensação de que, mesmo depois de tantos silêncios e desencontros, ainda existe alguém disposto a manter o fogo aceso dentro do peito.
    Eu acredito nos sonhos.
    Bom final de semana meu amigo poeta.
    Beijo!

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