A tua voz acende-se ao amanhecer,
mas nasce algures na noite, naquele lugar onde a escuridão guarda aquilo que o
dia não ousa dizer. Chega como um sussurro e eu escuto-a como quem abre uma
porta sem saber o que existe do outro lado. Há qualquer coisa na tua voz que
não diz o meu nome, mas que o pronuncia dentro de mim. Lá fora a noite escorre
nos vidros da janela. A cidade respira distante, indiferente. Aqui, porém, tudo
parece suspenso: o silêncio, a luz pálida sobre os lençóis, a memória do teu
corpo que talvez nem tenha estado aqui e ainda assim deixou a sua ausência por toda a parte.
Falas. A tua voz desliza na
escuridão como uma mão que conhece o caminho sem precisar de luz. Não sei se me
procuras ou se apenas passas por mim, mas há no modo como dizes certas palavras
uma promessa que não se completa. E talvez seja justamente isso que me perturba.
O desejo quando não se revela
inteiramente, torna-se sempre inquietante, como um sopro de um animal ferido. A
madrugada começa então a clarear, mas eu não quero o dia. Quero esta penumbra
onde ainda podemos fingir que nada aconteceu – onde o teu sussurro permanece
entre nós como um segredo que nenhum dos dois pretende confessar.
A tua voz acende-se ao amanhecer e eu fico acordado, escutando a noite dentro
dela.
albino santos
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