Há noites que não trazem sonhos.
Trazem um perfume na memória. Um calor no corpo. Um gesto suspenso no tempo.
Uma ternura que não quer partir.
Fecho os olhos e o silêncio aproxima-se devagar, como quem regressa a casa. E, sem que o tempo ou a distância possam impedir, encontro-te outra vez neste
lugar sem nome, como dois seres que se encontram por acaso numa esquina
esquecida do infinito. Então a noite respira. E eu também. Atravessas a noite
como quem atravessa água, entras no meu sono, leve como uma névoa. Não dizes
nada, nós sabemos bem a linguagem do silêncio.
Há palavras que pertencem ao
mundo e só fazem sentido dentro do sono, onde podemos tocar-nos sem mãos,
beijar-nos sem lábios, existir sem que o mundo perceba. Deixo-te existir em mim
sem perguntas, sem urgências, sem destino. Como existe a noite sem estrelas.
Como existe o mar dentro de ti. Como existe um segredo no coração.
Nesta noite, basta-me sentir a
tua ternura no meu sono, onde tudo pode ser verdade sem acontecer.
albino santos
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