EU NÃO ARDO NAS SOMBRAS, CONSTRUO ALVORADAS!...

terça-feira, 1 de setembro de 2026

FOI UMA NOITE ESCURA E TRISTE...

Havia na noite uma quietude quase solene. A luz pousava devagar sobre o nosso rosto, e o tempo, por uma dessas raras crueldades, parecia ter suspendido o seu curso para nos conceder mais alguns instantes antes do adeus. Tu estavas diante de mim, tão próximo que a distância era uma espécie de vertigem. Notei que prolongaste o silêncio. Demoraste. E nessa demora havia tudo o que naquele momento não ousamos confessar: a ternura, o amor, o desejo, a hesitação de quem sabe que certas portas, uma vez fechadas, não tornam a abrir-se com a mesma luz. A tua boca pairava bem próximo da minha, como a última página de uma história que nenhum de nós queria terminar.
Lembro-me sobretudo do silêncio. Do modo como os teus olhos procuravam os meus, como se ainda esperassem encontrar neles uma razão para ficar. Eu nada disse. Talvez porque há momentos em que qualquer palavra pode precipitar a partida, e o silêncio, ao contrário, ainda guarda a esperança de que tudo pode continuar. Porém, o silêncio foi ficando mais espesso, a tua imagem foi lentamente dissipando, como se uma estranha névoa se tivesse formado subitamente entre os nossos corpos, até que desapareceste sem que entre nós houvesse o mais ligeiro toque.

Na noite, escura e triste, ficou o perfume ténue da tua presença, ficou no ar a memória do que quase aconteceu. E ficou em mim aquele instante suspenso, tão breve e tão marcante, em que os nossos lábios estiveram à distância de um suspiro. Compreendi então, que algumas coisas não terminam quando alguém fecha a porta. Continuam a acontecer, silenciosamente, dentro de nós. Voltam nas noites mais agitadas, quando a memória, essa amante paciente, me devolve a proximidade da tua boca e o calor ansioso daquele último instante em que desapareceste diante dos meus olhos.



albino santos
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