Havia na noite uma quietude
quase solene. A luz pousava devagar sobre o nosso rosto, e o tempo, por uma
dessas raras crueldades, parecia ter suspendido o seu curso para nos conceder
mais alguns instantes antes do adeus. Tu estavas diante de mim, tão próximo que
a distância era uma espécie de vertigem. Notei que prolongaste o silêncio.
Demoraste. E nessa demora havia tudo o que naquele momento não ousamos
confessar: a ternura, o amor, o desejo, a hesitação de quem sabe que certas
portas, uma vez fechadas, não tornam a abrir-se com a mesma luz. A tua boca
pairava bem próximo da minha, como a última página de uma história que nenhum
de nós queria terminar.
Lembro-me sobretudo do silêncio. Do modo como os teus
olhos procuravam os meus, como se ainda esperassem encontrar neles uma razão
para ficar. Eu nada disse. Talvez porque há momentos em que qualquer palavra
pode precipitar a partida, e o silêncio, ao contrário, ainda guarda a esperança
de que tudo pode continuar. Porém, o silêncio foi ficando mais espesso, a tua
imagem foi lentamente dissipando, como se uma estranha névoa se tivesse formado
subitamente entre os nossos corpos, até que desapareceste sem que entre nós
houvesse o mais ligeiro toque.
Na noite, escura e triste, ficou
o perfume ténue da tua presença, ficou no ar a memória do que quase aconteceu.
E ficou em mim aquele instante suspenso, tão breve e tão marcante, em que os
nossos lábios estiveram à distância de um suspiro. Compreendi então, que
algumas coisas não terminam quando alguém fecha a porta. Continuam a acontecer,
silenciosamente, dentro de nós. Voltam nas noites mais agitadas, quando a
memória, essa amante paciente, me devolve a proximidade da tua boca e o calor
ansioso daquele último instante em que desapareceste diante dos meus olhos.
albino santos
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