São como mulheres submersas
asfixiadas por um véu de escuridão.
Vivem impiedosamente os dias
feitos do terror dos holocaustos.
Recortam o silêncio
com palavras rasas cobertas de poeira
em vocábulos breves e orações secretas.
Já esqueceram a geografia dos seus cabelos
e o perfume do amanhecer.
Os olhos engoliram a cor do chumbo
e as mãos, ávidas, buscam o rasto dos afectos.
Lentamente, o corpo se arrasta nas sombras
escondendo o rosto apócrifo
onde se adivinha o peso do olhar
através de um rasgão luminoso.
Humilhadas, quase divinas,
estas mulheres, caminham devagar
sem que se veja um gesto, um esgar,
ou se oiça um grito sufocado.
Somente a sombra do medo se passeia
absoluta, suprema, invulnerável!
albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor
EU NÃO ARDO NAS SOMBRAS, CONSTRUO ALVORADAS!...
sexta-feira, 13 de dezembro de 2024
MULHERES SUBMERSAS
sábado, 7 de dezembro de 2024
SOB UM CÉU DE MAGRITTE
Quando chega a noite és tu que chegas.
Nua. Vertiginosamente nocturna.
Intima e leve como se pairasses
sob um céu de Magritte.
Vem. Vem e despenha-te
por toda a minha intimidade.
Fere-te na falésia imensa do meu corpo
com tanto mar gemendo
e trás - me as delícias de todas as coisas,
pois longa vai já a minha noite por ti.
Vem. Como um vago rumor
escondido na neblina,
para que sejas tu o beijo prometido,
secretamente, aos meus lábios
já cansados de esperar.
Vem… e depois de tão esplêndido cansaço,
aproxima de mim o calor dos teus braços,
a ternura das tuas mãos
e leva-me até à realidade dos meus sonhos.
albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor
domingo, 1 de dezembro de 2024
DIZ-ME...
Diz-me
se ainda és o meu fogo
e se acendes a cinza
dos nossos sonhos carbonizados,
se és tu que desperta a ave magoada
que se move
no fluxo do meu sangue.
Diz-me
se te voltarei a encontrar
junto das horas enevoadas;
e se eras tu quem eu via
na infinita dispersão do meu ser;
se ainda beijas os meus poemas
que escrevia com a mão hesitante
e com estes dedos que ainda cheiram a ti.
Sabes bem,
que basta um sopro, um suspiro,
para que tudo renasça!
Para que a tua voz
acenda o lume do desejo
sem medo das ciladas do tempo.
E diz-me,
que ainda arde na pele
o perfume dos nossos corpos
e que queres dar à minha boca fatigada
os teus lábios para adormecer.
albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor
segunda-feira, 25 de novembro de 2024
OUSADIA
Quando ousamos
sorver o sabor de um céu
onde namoram estrelas cintilantes,
somos a génese de um astro
sem rota definida,
sem dia nem hora de chegada.
Vivemos apenas
o doce e cósmico sabor
de todos os instantes
que se consomem junto aos lábios.
... E como um sol de um fogo sem limites
mil estrelas tecem a luz!
albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor
segunda-feira, 18 de novembro de 2024
HORAS DE OUTONO
Enquanto os minutos se
espreguiçam
pelas tardes
um desejo indolente
amadurece nas margens do vento
como pétalas de outono que florescem
como se fosse primavera.
Deitam-se no veludo do ventre
e concentram em si
todos os sabores do fruto repousado.
Num gesto de audácia ainda pura
o corpo revela sem pudor
a usura dos prados. E tu és a sede,
a fonte, a sombra fascinante
que logo se expande
num prazer devasso e latejante.
Por entre subtis pétalas de sombra
há um fruto que espera,
maduro e sedutor como horas de outono
descendo lentamente pelas tardes.
albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor
segunda-feira, 11 de novembro de 2024
O ÚLTIMO VOO...
É
noite. Aqui, junto ao mar o vento parou, mas uma gaivota ainda esvoaça
assustada sobre a minha cabeça. Fecho os olhos e recordo o caminho onde tantas
vezes nos perdemos no impudor dos nossos sonhos. Em cada noite se morre mais um
pouco na palavra ausente e o silêncio é sempre mais profundo em cada amanhecer.
És agora cada vez mais inatingível dentro de mim. Foram amputados os meus
sentidos quando o nosso último voo aconteceu. Um bater de asas tudo sugou para
o mais profundo dos abismos despedaçando todas as lembranças. O tempo deixa de
existir, quando se morre assim dentro do sonho, com carícias ainda nos dedos e
com o sabor do beijo dentro da boca. As estrelas e a lua velam-me o sono, até
que do abismo se solte uma ave plena de amor e luz, que voe livre, em espirais
de fogo para dentro do meu peito!
albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor
segunda-feira, 4 de novembro de 2024
... E SE UM ADEUS HOUVER
Ao sol tardio de outono
na ânsia de abraçar quanto podia
dei-te o mais secreto e estranho beijo.
Mas tanto exigimos às breves carícias
que nos perdemos na vertigem
do beijo amachucado
e ficamos sem mãos antes do tempo,
sem uma palavra,
sem um rumor de pálpebras.
Dissipou-se na pele
o perfume vivo dos nossos corpos.
Aturdidos em silêncio
tudo declinou e empalideceu
e veio o vento magoar-nos
com a frieza de olhares silenciosos.
E se um adeus houver
talvez tudo se perca no rumor da água,
por nada de eterno haver entre os lábios.
albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor
