Sinto o cheiro incólume
da noite
nos teus lábios.
Não é apenas aroma – é a respiração
profunda antes de amanhecer.
Trazes na boca o húmus das constelações,
o doce calor da lua ainda intacta,
a sombra macia onde estrelas
despem o brilho para descansar.
E eu, fico suspenso na
tua órbita anoitecida
porque em ti
a noite não é ausência de luz,
é o silêncio febril da boca acesa
onde o desejo germina sem ruído.
Beijar a tua boca
é atravessar a noite sem a ferir,
colher a sua fragrância
e guardá-la no peito, como se guarda
na boca um beijo ainda quente.
.
albino santos
(in A Teia Frágil dos Dias)
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