EU NÃO ARDO NAS SOMBRAS, CONSTRUO ALVORADAS!...

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

MORRI NA TUA BOCA


 





Era imortal quando te tinha nos meus braços. Havia em ti qualquer coisa de sagrado na maneira como o teu corpo encostava contra o meu, como se o mundo tivesse finalmente encontrado um lugar onde adormecer. O tempo perdia o teu nome, as horas deixavam de existir e, até a morte, essa velha sombra que nos acompanha, parecia demasiado distante para nos alcançar. Éramos dois corpos abraçados contra a finitude, dois corações a fingirem que o amor poderia ser uma forma de eternidade.

Eu guardava-te como quem guarda a última chama antes da noite. Sentia a tua respiração junto com a minha, o calor dos meus dedos docemente pousados em ti, desenhando caminhos que nenhuma cartografia seria capaz de decifrar. Havia apenas o milagre de te ter, a vertigem de existires dentro do meu abraço.
Depois… num impulso que não contive, beijei-te. Longamente.

E morri no furor da tua boca!

Não foi uma morte súbita. Foi uma morte lenta, ardente, quase bela. A tua boca tinha a fúria das tempestades e a ternura dos lugares onde sempre nos encontramos. Correspondeste ao meu beijo como se quisesses arrancar-me do mundo, como se os teus lábios soubessem que há almas que só se revelam quando há uma música de fogo dentro da boca. E eu deixei-me morrer…

Morri para o medo, para a prudência, para esta vã tentativa de amar sem me perder nas manhãs que hesitam em arder. Morri de olhos fechados, dentro da tua boca. Agora sei que era imortal quando te tinha nos meus braços. A eternidade era aquele instante antes de tudo acabar, e eu confundia o teu corpo com o destino, o teu abraço com uma promessa e a tua boca como a última porta antes do paraíso.

E se um dia nos encontrarmos, longe das constelações melodiosas, não me peças que sobreviva ao teu beijo.


.

albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor

Sem comentários:

Enviar um comentário