Era imortal quando te tinha nos
meus braços. Havia em ti qualquer coisa de sagrado na maneira como o teu corpo
encostava contra o meu, como se o mundo tivesse finalmente encontrado um lugar
onde adormecer. O tempo perdia o teu nome, as horas deixavam de existir e, até
a morte, essa velha sombra que nos acompanha, parecia demasiado distante para
nos alcançar. Éramos dois corpos abraçados contra a finitude, dois corações a
fingirem que o amor poderia ser uma forma de eternidade.
Eu guardava-te como quem guarda
a última chama antes da noite. Sentia a tua respiração junto com a minha, o
calor dos meus dedos docemente pousados em ti, desenhando caminhos que nenhuma
cartografia seria capaz de decifrar. Havia apenas o milagre de te ter, a
vertigem de existires dentro do meu abraço.
Depois… num impulso que não contive, beijei-te. Longamente.
E morri no furor da tua boca!
Não foi uma morte súbita. Foi
uma morte lenta, ardente, quase bela. A tua boca tinha a fúria das tempestades
e a ternura dos lugares onde sempre nos encontramos. Correspondeste ao meu
beijo como se quisesses arrancar-me do mundo, como se os teus lábios soubessem
que há almas que só se revelam quando há uma música de fogo dentro da boca. E
eu deixei-me morrer…
Morri para o medo, para a
prudência, para esta vã tentativa de amar sem me perder nas manhãs que hesitam
em arder. Morri de olhos fechados, dentro da tua boca. Agora sei que era imortal quando te tinha nos meus braços. A
eternidade era aquele instante antes de tudo acabar, e eu confundia o teu corpo
com o destino, o teu abraço com uma promessa e a tua boca como a última porta
antes do paraíso.
E se um dia nos encontrarmos, longe
das constelações melodiosas, não me peças que sobreviva ao teu beijo.
.
albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor

Sem comentários:
Enviar um comentário