O
silêncio é um mar sem ondas e nele me perco sem rumo. Não há bússola que me
guie, nem vento que me leve; apenas a vastidão que se estende, imóvel, como
se o tempo tivesse parado para escutar o meu próprio respirar. Cada instante é
uma água límpida que me envolve, num espaço onde a ausência se transforma numa
presença infinita. Navegar sem rumo não é perder-se – é entregar-se. É permitir
que o vazio revele os contornos ocultos da alma, que cada pensamento se erga
como uma ilha distante, pronta a desaparecer no horizonte.
No silêncio, não há
urgência, os passos que não dei, as palavras que não pronunciei, os amores que não vivi, todos
encontraram abrigo nesse oceano calmo, onde nada se exige além do estar. E
quanto mais avanço, mais percebo que não há chegada. A viagem é o próprio
mergulho no silêncio, esse espaço onde o mundo se dissolve e só resta o
essencial: eu, suspenso, à deriva… em paz!
albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor
EU NÃO ARDO NAS SOMBRAS, CONSTRUO ALVORADAS!...
quarta-feira, 20 de agosto de 2025
O SILÊNCIO
segunda-feira, 18 de agosto de 2025
O AMOR E A ROSA
Não deixes que o amor se prenda
nos espinhos de uma rosa. O amor foi feito para tocar sem pressa, na delicadeza
das pétalas, onde tudo é vivo e palpitante. O toque certo não rasga: desliza. Mãos que conhecem o caminho não têm pressa de chegar; percorrem, sentem,
exploram, como quem lê um poema escrito sobre a pele. Há rosas que se fecham
por medo; Há outras que se abrem ao primeiro sopro que lhe beija o âmago. A fragrância
que exalam não é só perfume – é confissão. É um pedido mudo de ternura, para
que o amor entenda o idioma secreto da entrega. Afasta o amor dos espinhos
afiados da insegurança, que arranham até o mais puro desejo. Leva-o ao âmago da
flor, onde o calor é quase chama, e a respiração se mistura com o perfume da
pele. Ali, cada pétala é uma fronteira ultrapassada, cada suspiro é um abismo
que se atravessa, cada toque a certeza de que nada mais importa fora daquele instante.
E quando a rosa enfim se oferece inteira, o tempo deixa de existir e o mundo se
resume ao instante em que cada pétala é um suspiro profundo que se desfaz na
boca. Aí, o amor não se magoa. Aí, o amor floresce!
albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor
quinta-feira, 14 de agosto de 2025
NO RUMOR DA NOITE
A noite veste-se de seda e
pousa sobre mim. No ar, o hálito quente do verão mistura-se com o cheiro da
terra molhada, como se tivesse acabado de chover. Há rumores que não vêm do
vento, mas de bocas invisíveis roçando a minha pele. Sons baixos, quase beijos,
que se enroscam no meu corpo. As sombras movem-se como amantes que dançam sem
música – mãos imaginárias contornam as minhas formas com lentidão, saboreando a
distância antes de tocar. A lua brilha, oblíqua, espreita como amante
impaciente, derramando luz sobre a pele como quem despe devagar. A noite é como
um corpo que me envolve, e cada rumor é um suspiro que se recusa a acabar.
Porém... há um rumor diferente que tem a tua voz e a forma do teu corpo. E no lugar onde os meus olhos
repousam e a alma se despe, são as tuas mãos que me encontram como destino. Vêm suaves como a brisa, atravessando véus de sono, como se o próprio
universo te sussurrasse o caminho até chegares a mim. E quando me tocas, algo
em mim se acende. E tu, feita de desejo e madrugada, pintas constelações no meu
peito com a ponta dos dedos, como se o meu corpo tivesse sido moldado nos teus contornos. E cada gesto teu sobre a minha pele, me dá a certeza secreta de que à
noite sempre voltarás. Porque há momentos de amor que não se perdem, vivem
dentro de nós, mesmo quando o mundo inteiro dorme serenamente e nós nos
encontramos, ternamente, no rumor da noite.
albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor
segunda-feira, 11 de agosto de 2025
O TEMPO... É AGORA!...
Quando a noite se torna mais
escura, como tela sombria a negro impressa, é tempo de largar as amarras e
deixar que o coração fale mais alto que o medo. A cidade dorme, mas nós não. Há
um pulsar secreto no escuro, um sussurro que se infiltra pelas frestas da
madrugada, como um sopro profano prometendo a eternidade do instante. É tempo
de viver o amor rasgando a noite, atravessando as ruas vazias como quem corta
um véu, desnudando segredos e inventando o amanhã com as próprias mãos. É tempo
de olhar nos olhos até que a hora se renda, até que a lua - pálida e
invejosa - se curve diante do que somos quando esquecemos o resto do mundo e
desvendamos a noite em fendas de luz e vertigem. É tempo de deixar o corpo
arder até que ele aprenda o idioma das chamas. Que nunca mais habite em nós o
árido silêncio da espera, mas sim o ruído doce de dois corpos que se encontram
como tempestades que se completam. O amor é lâmina e é abraço; decepa a solidão
e envolve a pele. Cada toque é um incêndio breve, e cada beijo é mapa para um
lugar que não existe fora de nós. A noite é frágil diante de tanta luz. O
escuro se rasga, o tempo se dilata. E nós – apenas nós – seguimos, porque
sabemos que o amanhecer não é o fim, mas a consequência inevitável de viver sem
freios, como se a eternidade coubesse inteira entre dois suspiros. Não pode
haver data, nem hora, nem medo. Apenas o amor, e o amor não conhece madrugadas
– apenas horizontes!
albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor
sexta-feira, 8 de agosto de 2025
LÍRICO INSTANTE
Na policromia dos delírios que emanam de cada
um dos meus silêncios, liberto os mais ousados devaneios da minha imaginação.
Fecho os olhos, e deixo os meus dedos deslizarem pela tua pele, descendo a alça
do teu vestido. Ah! Lírico instante em que a poesia dos meus olhos se torna incandescente
nos teus seios – esse santuário de curvas onde a minha sede repousa e a febre
das palavras se dissolve no silêncio dos meus olhos. Escultura de desejo
moldada pela luz pálida da madrugada, é a metáfora mais ardente que o meu olhar
já escreveu. Cada gesto teu é um verso sem rima que me embriaga, cada suspiro,
um poema secreto que só os meus dedos sabem ler. E quando te cai a alça do
vestido, não é apenas o corpo que se revela – é o mistério do mundo, o brilho do
que é sereno e belo, o doce abismo entre o que se vê e o que se sente. Os teus
seios brancos, redondos, os mamilos rosados pela dilatação da tarde escaldante,
são suaves colinas onde os meus lábios encontram paz, acendem em mim um fogo
sereno e absoluto, como se o próprio tempo parasse para te contemplar. E eu me
deixo perder em ti. Mas não importa perder-me se for no calor dos teus vales,
no pulsar do teu ventre sob a minha mão, porque és o poema que nunca se
encerra, o instante eterno em que deixo de ser quem sou para ser apenas desejo.
Há em ti um poema que não sei escrever com palavras, mas que o meu corpo
inteiro aprende a declamar em silêncio, quando te toco com amor e ternura, como
quem toca o coração de um sonho.
albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor
segunda-feira, 4 de agosto de 2025
A SOMBRA
Há algo teu que me toca, mesmo
quando não estás – é a tua sombra. Chega sempre antes de ti, entra pelas
frestas do meu quarto, escorre pelas paredes, invade o meu corpo como quem já
sabe o caminho. Sussurra no escuro e espalha pelo quarto o teu perfume. Depois,
silenciosamente, deita-se comigo, respira sobre a minha nuca e os seus
contornos moldam o lençol. Tem o peso exacto do meu olhar quando te dispo, sem
pressa, sem culpa, com aquela lentidão que os olhos pedem. Sinto o vestígio
morno da tua pele na minha, a lembrança do teu sorriso entreaberto, do teu
cabelo caindo desordenado sobre o peito. A tua sombra conhece os caminhos do
meu corpo, os atalhos da minha vontade. Toca onde tu tocavas... e onde não
tocaste, imagino que tocarias. Às vezes penso: talvez eu tenha amado mais a tua
sombra do que a tua luz. Talvez tenha sido nela que me perdi. Porque a tua
sombra não se deixa esquecer. É feita do que tu calaste, é o tudo o que não
concluíste, o desejo que continua a insinuar-se no teu olhar. Então fica querida sombra!... Deita-te sobre mim como fazias e deixa que eu te sinta no calor da
noite. Porque entre o amor e a luz, há sempre uma sombra que escorre pelas
paredes do meu quarto e invade o meu corpo como quem já sabe o caminho.
albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor
sexta-feira, 1 de agosto de 2025
ENTRE A PRAIA E O LUAR
Há lugares que não são feitos
de geografia, mas de emoção. São lugares de puro encanto onde o mundo parece
suspenso. Há neles momentos que não pertencem ao tempo, mas ao amor. Entre a praia
e o luar há um espaço onde o tempo não se apressa – um intervalo de silêncios
doces e promessas por cumprir. É lá que os meus sonhos se deitam, como conchas
à espera da maré certa. O sal do mar cobre-lhes a pele e o vento murmura
segredos antigos, sussurrados por quem já amou demais. O luar, espelho divino
no céu, derrama-se sobre a areia como um afago que nunca se foi. Ilumina a
filigrana dos contornos do que ainda não vivi e pinta com prata os desejos que
me habitam. Às vezes, os sonhos dançam com a espuma das ondas; outras vezes,
adormecem comigo na solidão dos rochedos, embalados pelo murmúrio contínuo do
mundo. Ao longe, há um farol que nunca se apaga – é o coração a resistir, a
indicar o caminho quando me perco de mim. E quando isso acontece, sinto que o
universo respira fundo, preso entre o som do mar e o perfume salgado da noite.
Sento-me então entre a brisa e o infinito, a recordar os sonhos que já tive, a
ouvir os passos que não dei, a pensar as palavras que nunca te disse, esperando
que o mar as leve até às ondas onde, também tu, talvez sonhes comigo.
albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor