EU NÃO ARDO NAS SOMBRAS, CONSTRUO ALVORADAS!...

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

O PERFUME





                                    Há perfumes que resistem
                                    à erosão do tempo.
                                    Ficam presos na gaveta da memória 
                                    que o tempo não consegue esmorecer.
                                    Permanece
                                    paciente, doce, suave, 
                                    até ser exposto à nudez da sombra
                                    onde pousam os lábios.

                                    Desperta desejos tão profundos
                                    que o tempo não o desgasta,
                                    antes o apura e sublima.
                                    É um fogo breve
                                    quando o seu aroma te inunda
                                    na fatigada e lenta doçura da tarde.                  




albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

TEMPO DE CEREJAS


 






Nós fomos o tempo das cerejas
a felicidade nua a pulsar nos lábios
um verão breve
amadurecendo entre os dedos

Fomos tardes abertas ao sol,
a pele morna, o riso sem destino
e aquele silêncio doce
onde o mundo parecia caber inteiro
dentro de um beijo.
Aprendemos a sorver a vida devagar
como quem acredita
que a eternidade pode começar
em qualquer instante.

Mas todos os estios se despedem.
Vieram os dias mais pálidos
e o verão amadurecendo em silêncio
dentro de nós.

Nós fomos o tempo das cerejas
e talvez por isso
ainda há doçura naquilo que nos dói…


.

albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor

sábado, 1 de agosto de 2026

A TUA VOZ...


 











A tua voz acende-se ao amanhecer, mas nasce algures na noite, naquele lugar onde a escuridão guarda aquilo que o dia não ousa dizer. Chega como um sussurro e eu escuto-a como quem abre uma porta sem saber o que existe do outro lado. Há qualquer coisa na tua voz que não diz o meu nome, mas que o pronuncia dentro de mim. Lá fora a noite escorre nos vidros da janela. A cidade respira distante, indiferente. Aqui, porém, tudo parece suspenso: o silêncio, a luz pálida sobre os lençóis, a memória do teu corpo que talvez nem tenha estado aqui e ainda assim deixou a sua ausência por toda a parte.

Falas. A tua voz desliza na escuridão como uma mão que conhece o caminho sem precisar de luz. Não sei se me procuras ou se apenas passas por mim, mas há no modo como dizes certas palavras uma promessa que não se completa. E talvez seja justamente isso que me perturba.
O desejo quando não se revela inteiramente, torna-se sempre inquietante, como um sopro de um animal ferido. A madrugada começa então a clarear, mas eu não quero o dia. Quero esta penumbra onde ainda podemos fingir que nada aconteceu – onde o teu sussurro permanece entre nós como um segredo que nenhum dos dois pretende confessar.

A tua voz acende-se ao amanhecer e eu fico acordado, escutando a noite dentro dela.



albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor

domingo, 26 de julho de 2026

NASCEU NA MARGEM DO RIO...







 

Nasceu na margem do rio, num dia de sol, entre as frágeis teias da vida. Que as suas palavras continuam a ecoar dentro de quem as lê, como o rumor distante do mar depois de abandonarmos a praia, como o perfume suave das madressilvas que permanece intacto no ar quando o jardim já repousa.

albino santos


sábado, 20 de junho de 2026

A FRÁGIL TEIA DOS DIAS...


Este será o meu próximo livro que será apresentado ao público no dia 25 de Julho ( sábado) pelas 16h00, na Casa Branca de Gramido. Um local de rara beleza situado na margem do rio Douro.

Todos estão desde já convidados para o evento. Será muito gratificante poder contar com a  V/ estimulante presença.

 

***  ***  ***

 

No conjunto de textos contidos nesta obra, descobriremos percursos de um novo encantamento, onde as palavras gravitam pelo fascinante mundo das emoções, onde tudo é tão próximo e intocável.

                      “Tudo o que vive à superfície dos dias parece eterno enquanto respira. Mas há sempre qualquer coisa à espreita – um desvio invisível, uma súbita mudança de luz, uma palavra dita tarde demais capaz de desfazer a arquitectura do quotidiano. Vivemos como quem atravessa uma ponte suspensa por fios de memória e hábito. Cada gesto repete o anterior para nos convencer de que existe continuidade, de que amanhã será apenas uma continuação dócil do dia de hoje. No entanto, basta um golpe de vento. Um telefonema. Um silêncio prolongado. Basta o rasgão inesperado de um poema dentro do peito para tudo perder o nome no meio de sombras.
Porque tudo o que acontece “ na frágil teia dos dias” nunca nos pertence verdadeiramente. É apenas um vento de passagem – breve, luminoso e impossível de segurar.


*O acompanhamento da edição deste livro e a sua promoção, vai certamente retirar-me algum  tempo para estar convosco. Espero a V/ compreensão.


O AUTOR
albino santos


 

quarta-feira, 17 de junho de 2026

... SE UM ADEUS HOUVER









Ao sol débil e já tardio 
na ânsia de abraçar quanto podia
dei-te o mais secreto e estranho beijo.
Mas tanto exigimos às breves carícias
que nos perdemos na vertigem
do beijo amachucado
e ficamos sem mãos antes do tempo,
sem uma palavra,
sem um rumor de pálpebras.

Dissipou-se na pele
o perfume vivo dos nossos corpos.
Aturdidos em silêncio
tudo declinou e empalideceu
e veio o vento magoar-nos
com a frieza de olhares silenciosos.
E se um adeus houver
tudo se vai perder no rumor do vento,
por nada de eterno haver entre os lábios.





albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor

segunda-feira, 15 de junho de 2026

O RIO



 



Há muito que as minhas águas aprenderam o caminho para chegar até ti e nunca mais deixaram de correr na tua direcção. Em ti desaguam os rios da espera e os da esperança. Os que nascem serenos nas montanhas da manhã e os que transbordam nas tempestades da noite. Em ti chegam as correntes que escondo do mundo, carregadas de silêncios, memórias e perguntas que nunca ousei pronunciar. Entrego-te tudo o que passa por mim: as margens que construí para me proteger, as pontes que ergui para te alcançar, os reflexos de céu que transporto nas águas inquietas do meu peito.
Mas os rios também se cansam de correr sem saber se rumam ao mar ou ao deserto. Até quando as minhas águas hão-de procurar o teu horizonte? Até quando farei de ti a foz de tudo o que sou?

Porque há uma hora em que até os rios desejam repousar. Uma hora em que deixam de querer perder-se e começam a desejar encontrar-se. O rio que durante tanto tempo correu para encontrar a tua foz, começa a escutar o rumor distante das suas nascentes.



albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor

quinta-feira, 11 de junho de 2026

ONDE O MAR CANTA...







Fui eu quem traçou caminhos de fogo
sobre os teus silêncios,
quem abriu as janelas no teu corpo
para que a luz entrasse.
E em cada lugar onde estremeces
o prazer floresce
e tem o traço das minhas mãos.
Desenhei-te sem tinta, sem tela,
apenas com a ternura de quem ama.

Conheço o exacto instante
em que se liberta o teu suspiro,
o segundo breve
em que deixas de resistir
para floresceres nas minhas mãos.
Porque o prazer não nasce apenas
quando alguém navega o teu corpo
como quem navega o mar
sem o dominar nunca,
mas sabendo exactamente onde ele canta!



albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor

sexta-feira, 5 de junho de 2026

SONHEMOS ENQUANTO HÁ TEMPO AINDA...

  

Sonhemos enquanto há tempo ainda, porque o que é belo depressa se finda. 
Antes que a noite se dissolva na pálida cinza das horas, deixa que o silêncio nos envolva como um manto de veludo. Despe a pressa dos ombros, deixa cair a noite devagar sobre a pele.  
Toca-me, com dedos lentos, com olhos famintos, com essa ternura que faz o coração arder sem ruído. Há nos teus olhos um brilho quase triste, quase eterno, como jardins esquecidos pelo inverno à espera de Abril.
E quando a tua mão encontrar a minha, o mundo abranda – as taças repousam, os relógios hesitam e até o vento parece escutar-nos.

Ama-me. Com a delicadeza rara das coisas que não regressam. Encosta o teu rosto ao meu como quem protege uma chama contra a crueldade do tempo. Porque a beleza vive pouco, e o amor, quando verdadeiro, arde com uma luz serena que nenhuma madrugada consegue extinguir. Depois… se o destino quiser separar-nos, ficará ao menos esta memória: duas almas abraçadas na eternidade de um instante perfeito.


albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor


segunda-feira, 1 de junho de 2026

AMANHECER


 








O sol nasceu hoje no meu quarto. Não entrou pela janela – aconteceu. Como acontecem certas memórias que regressam sem aviso, como certos nomes que continuam a viver dentro de nós mesmo depois do silêncio. A madrugada ainda respirava devagar quando a luz começou a tocar as paredes, primeiro tímida, depois mais intensa, impossível de ignorar. Depois pousou sobre a cama desfeita, percorreu os livros esquecidos na mesa de cabeceira, os pequenos destroços invisíveis deixados por uma noite de insónia.

Havia qualquer coisa de diferente naquele amanhecer. Não sei explicar. Talvez porque o silêncio não pesava. Talvez porque, pela primeira vez em muito tempo, o vazio não me magoava. A luz caminhava pelo quarto como se já conhecesse o lugar. Tocou-me o rosto devagar, demorou-se nos meus lábios, aqueceu-me a alma como quem tenta salvar uma chama quase extinta.

Depois beijou-me a boca demoradamente. Foi um beijo lento, profundo, feito de amor e ternura. Um beijo capaz de suspender o tempo. Naquele instante, percebi que há ausências que nunca partem verdadeiramente. Apenas mudam de forma. Outras vezes tornam-se luz.

Fechei os olhos e deixei-me ficar imóvel, escutando o rumor da cidade a acordar. Lá fora, as pessoas corriam para os seus dias, os relógios continuavam cruéis. Mas ali dentro, o tempo tinha abrandado. Como se o mundo respeitasse a delicadeza daquela manhã. Sentia-te em tudo. No ar morno junto às cortinas, na poeira dourada suspensa nos raios de luz, no calor da luz misturado ao resto do meu sono. Na forma como o coração, às vezes, insiste em reconhecer alguém mesmo na ausência.

Então compreendi aquilo que talvez já soubesse desde sempre: certas pessoas não passam pela nossa vida – permanecem nela. Habitam-nos. Ficam escondidas na maneira como olhamos o céu, no silêncio que deixamos crescer antes de adormecer.
Por isso o sol nasceu no meu quarto esta manhã.
Por isso a luz parecia ter mãos.
Por isso o meu coração acordou menos cansado.
Porque o sol, hoje, tinha o teu nome!


albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor

quinta-feira, 28 de maio de 2026

INCANDESCÊNCIAS






 


Como sílaba incendiada no feno
és um rasgão de prata
no rumor vegetal das searas.
Inventas os gestos nas vagarosas sombras.
Propagas o fascínio
da íntima linguagem do amor
no sedutor resvalar das brisas.
Desfazes nas mãos a orografia das palavras
na precária eternidade da luz.

És a cicatriz petrificada da lava
ainda a arder de tanto ser hesitação.
És uma linda mariposa incendiando o poema!...


albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor


domingo, 24 de maio de 2026

NOCTURNO


 







Antes que a noite se dissolva
na pálida cinza das horas,
deixa que o silêncio nos envolva
como um manto de veludo.
Despe a pressa dos ombros,
deixa cair a noite devagar sobre a pele.
Toca-me, com dedos lentos,
olhos famintos
e com essa ternura
que faz o coração arder sem ruído.

Há nos teus olhos
um brilho quase triste, quase eterno,
como jardins esquecidos
pelo inverno à espera de Abril.
E quando a tua mão encontrar a minha
despe-te como o orvalho
na concha da manhã
e dá à minha boca fatigada
os teus lábios para adormecer.




albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor

segunda-feira, 18 de maio de 2026

O FOGO DAS PALAVRAS


Há palavras que não foram feitas para serem ditas em voz alta. Foram feitas para se dizerem baixinho, perto da pele, entre a respiração ofegante e o desejo, nesse lugar invisível, onde com o aroma de cada sílaba no lugar da boca se faz lume. Porque há bocas que não beijam apenas. Aproximam-se devagar e deixam no ar o perfume morno das palavras ainda por dizer. Cada sílaba trás consigo um calor próprio: umas ardem lentas, como brasas escondidas sobre as cinzas; outras chegam abruptas, faíscas breves capazes de incendiar uma noite inteira. E eu guardarei cada uma delas. Não pelo seu significado exacto, mas pelo seu aroma. Pela forma como certas palavras permanecem depois de pronunciadas, como um vinho generoso na memória da língua, como fumo impregnado na roupa após um fogo intenso. Há vozes que deixam cheiro. Há nomes que continuam a respirar dentro de nós mesmo depois de terem sido ditos pela última vez.
No lugar da boca – esse lugar vulnerável entre o silêncio e o desejo – acenderei um fogo. Não um fogo devastador, mas aquele fogo íntimo que aquece o frio da ausência. Um fogo feito de murmúrios, de pausas, de vogais demoradas na saliva do desejo. Porque o amor, às vezes começa exactamente aí: na maneira como alguém pronuncia o nosso nome como se estivesse a tocar-nos. Então, vou arder lentamente. Como uma carta esquecida junto à chama de uma vela. Como que aceita finalmente o calor no íntimo despir das suas luzes. Como quem descobre que certas chamas não ferem – iluminam. Porque há quem acenda o desejo dentro do corpo apenas com a ternura de uma palavra dita com os lábios encostados ao ouvido.
Com o aroma de cada sílaba no lugar da boca farei lume, até que a noite tenha o teu cheiro.





albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor

quinta-feira, 14 de maio de 2026

PINTURA













Há corpos que não se tocam com as mãos, tocam-se com os olhos. E eu quero habitar-te assim, como quem se perde no fogo de um olhar. Ser uma tela aberta diante dos teus olhos, crua, silenciosa, à espera da fúria doce dos teus desejos. Queria que me pintasses sem piedade, com as cores mais intensas do desejo, com os vermelhos inquietos da luxúria, a clara sombra onde pousam os lábios e os dourados febris das vontades que nunca confessaste em voz alta.
Que os teus dedos sejam os pincéis embriagados de noite, deslizando sobre a pele e eu, imóvel, deixaria que o teu desejo escolhesse as tonalidades: O azul das carícias, o negro húmido do desejo, o púrpura quase sagrado daquilo que acontece quando nos encontramos no torrencial silêncio da noite, onde há amores que beijam – e há amores que devoram. O teu, tem sombras suaves na carne da cor, luxúria mordendo cada sombra até fazê-la gemer luz. E eu aceitaria tudo. A tinta em excesso, derramada pelo teu ímpeto, ser obra inacabada pendurada no aconchego do teu peito, pulsando ainda como se cada desejo teu fosse uma nova camada de tinta sobre todas as minhas vontades.
No fim, talvez ninguém entendesse o quadro, mas haveriam marcas de fogo suficientes para que as cinzas se reacendessem para uma nova pintura.


albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor

terça-feira, 12 de maio de 2026

PRIMAVERAS...




 



Há estações que se anunciam devagar, como um perfume esquecido numa roupa antiga, como a luz morna que escorre pelas cortinas antes mesmo do dia nascer. A primavera, talvez seja isso mesmo: o instante em que o desejo desperta discretamente, sem fazer ruído, como as primeiras luzes das colinas.
Ela sentia-o nos pequenos detalhes. No modo como o silêncio se demorava entre duas palavras. Na maneira quase cruel como certos olhares tocavam mais fundo do que as mãos.
Havia qualquer coisa prestes a acontecer – e isso tornava tudo mais excitante.

As rosas no jardim, ainda estavam fechadas, húmidas de orvalho. Mesmo assim, já exalavam um perfume leve, como se guardassem para o momento certo a beleza que carregavam por dentro. Também o amor possui esse segredo – oculta-se na espera, deixa que a noite cresça nas suas margens nuas, até que as pétalas húmidas das rosas se ofereçam amorosamente à luz do amanhecer.
E haviam os lábios... Sempre os lábios. Habitadas fronteiras entre aquilo que se diz e aquilo que se deseja dizer. Quantas vezes o beijo começa muito antes da boca? Talvez tudo comece num breve tremor, no cuidado lento com que alguém pronuncia o nome do outro, ou no instante em que os dois percebem que já não pertencem inteiramente à noite. Ela gostava dessa hesitação excitante… do quase. Ela sabia que quando o desejo amadurece devagar, torna-se mais intenso, como um poema escrito à média luz, onde cada palavra parece arder discretamente na alvura da página.


albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor

sexta-feira, 8 de maio de 2026

OS SONHOS






 












Quando a noite chega pálida, exausta de carregar nos ombros a dureza cruel dos dias calcinados, os sonhos erguem-se das profundezas do silêncio como animais famintos.
Arrastam consigo o hálito húmido das ruinas interiores e o perfume gasto e obscuro das coisas esquecidas dentro da alma.
Avançam pelas cidades já adormecidas como sombras incendiadas, procurando um corpo ardente entre as figuras sonâmbulas de um desejo errante. Um corpo verdadeiro. Um corpo capaz de suportar o peso do delírio, a urgência do amor, a vertigem de existir sem máscaras. Mas tudo o que encontram são rostos gastos pela rotina dos dias, bocas cheias de silêncios, olhos onde a esperança já secou. E no meio dessa noite devastada, os sonhos continuam a procurar – obstinados, febris – alguém que ainda conserve fogo dentro do peito.

E quando finalmente encontram um olhar ainda aceso na escuridão – um olhar capaz de incendiar a noite inteira – o silêncio torna-se ainda mais profundo. O desejo abre então as suas asas, como se duas solidões, depois de atravessarem desertos intermináveis, finalmente se encontrassem. E nesse encontro, os sonhos deixam de vaguear como espectros famintos. Tornam-se quase reais. A noite já não é um território de perda, mas um lugar de revelação – um espaço onde o desejo encontra, finalmente, um corpo ardente que se deixa envolver no calor das suas asas.
Talvez seja por isso que continuamos a sonhar, porque haverá sempre alguém, carente de sonhos, de amor e de beijos, que abre o peito aceso na escuridão, e dizer quase num murmúrio:

Entra. Aqui ainda existe um fogo que quer arder intensamente.



albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor

quarta-feira, 6 de maio de 2026

TERNURA










Procuro a ternura súbita como quem acende uma vela no meio da tempestade. Não uma ternura domesticada, dessas que aprendem a sentar-se à mesa e a repetir gestos seguros, mas outra – selvagem, breve, luminosa. Uma ternura que aconteça de repente, como o primeiro cheiro da terra depois da chuva, como uma ave atravessando o silêncio. Quero encontrar em ti essa flor ávida de orvalho, ainda húmida da madrugada. Aproximar-me devagar, como quem entra num jardim abandonado, onde cada folha guarda um segredo e cada sombra respira saudade. E tu és um bosque. Em ti os caminhos não conduzem, perdem-se. E talvez seja isso que me chama – a possibilidade rara de desaparecer sem medo. Entrar dentro de ti seria abandonar as margens do que conheço. Deixar para trás os ruídos, os nomes, a fadiga dos dias. Caminhar pelo interior do teu silêncio como quem toca o musgo com as mãos nuas. E depois adormecer na tua boca, como se a tua voz pudesse fechar a noite sobre mim com ternura. Como se existisse finalmente um lugar onde o coração pudesse repousar.

Há amores que queimam. Outros iluminam.
O teu, imagino-o assim: uma luz baixa entre árvores, quase secreta, onde alguém me espera sem chamar.


albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor

sábado, 2 de maio de 2026

O DESERTO


 






Sinto-me um deserto vasto e silencioso, onde o tempo se deita sobre as dunas como um véu quente, ondulando entre memórias. Há em mim uma sede quase mineral, que não se apaga com a passagem dos dias nem com a ilusão das miragens. Caminho por mim mesmo como quem procura um sinal ou uma nascente escondida no labirinto interminável e rumoroso da memória.
E então vens tu – não como uma chuva tímida, mas como um rio impetuoso, cheio, indomável. O teu corpo trás a força da corrente, trás fulgor, trás vida. E quando te aproximas, o deserto em mim começa a estremecer, como se cada grão de areia conhecesse finalmente o seu destino. Perco-me nesse fluxo, cedo ao teu ímpeto, deixo de ser margem e dissolvo-me nas tuas águas. E aquilo que antes era árido, torna-se fértil, pulsante, infinito. Cada instante contigo é excesso – de calor, de presença, de desejo – como se o mundo inteiro se contraísse nesse encontro onde as margens já não existem. Sedento de ti, ergo-me até ao limite do que posso sentir, e bebo o horizonte como quem bebe a madrugada – lenta, densa, inevitável. Há um sabor em ti que não se esgota, uma urgência que não se apaga, mesmo depois de terminarem todos os instantes.

Depois… fica o eco. O calor que não arrefece. A memória do teu corpo ainda a correr no meu, como um rio que se recusa a desaparecer. E eu permaneço, à beira de mim mesmo, desejando essa inundação que transforma o deserto em vida, e o desejo em infinito.



albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor

segunda-feira, 27 de abril de 2026

ÉS O MAR E A ONDA


 




 

És o mar e a onda
o sal doce na pele do vento,
a maresia onde o desejo 
se liberta
sem âncoras,
sem nome, sem tempo.

És o rumor das águas profundas,
segredo que o mar não revela,
o impulso que nasce na lua
e rebenta em espuma
sobre a areia.

No dorso das vagas
cavalgas o amor,
indomável, vasto, profundo,
como se o mundo coubesse
no instante líquido do teu beijo.

Eu, sou apenas a margem rendida,
que aprende a ceder
cada vez que regressas,
cada vez que me invades
com o infinito que trazes contigo.



albino santos
* Reservados Todos os Direitos de Autor